Viver em Amor “O Segredo Vergonhoso”

Do Autor de Viver em Amor “O Mensageiro” Klaus J. Joehle

 

Amor

À minha bem-amada, que é obviamente o maior
de todos os anjos
É uma experiência muito bela ter-te na minha vida
E muito inspirador saber que foste capaz de amar um homem
Que é tão teimoso como uma mula e puxa da espada De cada vez que uma folha esvoaça até ao chão
Os anjos aquecem-se à luz que emana de ti
Obrigado
Por estares na minha vida
 

Uma palavra

Usando as minhas próprias palavras, julgo acreditar na possibilidade da verdade mais do que na própria verdade. O que hoje é tido como verdade não resiste à luz da verdade de amanhã.

Não são as verdades simplesmente um percurso? Talvez um percurso sem fim! Talvez a verdade seja apenas uma fantasia a que nos agarramos por uma questão de segurança em face do desconhecido; as coisas que não conseguimos aprofundar, penso que a verdade está mais próxima desses santuários interiores de fé e de confiança que da própria verdade.

Dito isto, as palavras em que quero acreditar, por favor tornem-no realidade pois não desejo passar por tolo, apresentar-me como uma vozinha oculta vinda das profundezas da minha consciência. Sim, compreendo o vosso ponto de vista, a que já respondi, mas a verdade não é minha para eu a controlar, nem vossa.

O facto é que à medida que o tempo passa vou envelhecendo e ficando menos seguro de tudo, excepto que o tempo passa e eu vou envelhecendo. No meu primeiro livro disse que escrevo a verdade o melhor que posso. Agora, neste livro, tenho de dizer que escrevo aquilo que creio ser a possibilidade da verdade.

Se é que as histórias têm verdadeiramente um fim ou um princípio, então aqui está, por assim dizer, o resto da história. Como sempre, aproveite o leitor o que lhe agradar e deixe o resto para alguém que o aprecie.

Todo o meu amor

 

A vida é uma questão de escolha

Podemos escolher o Amor ou a Espada e um bilião de opções intermédias

Talvez você já tenha decidido

Ou

Talvez tenha decidido esperar e ver o que o seu inimigo vai fazer

 

Considerando a maneira como o universo funciona, se este livro chegou às suas mãos, esta história ou vai sensibilizá-lo de algum modo, ou ser mesmo uma parte da sua interminável  jornada.

 

Ortografia e gramática?

Grafia com erros é como uma linda flor
À beira da estrada
Onde não devia estar
Mas afasta-o de onde
Você não devia ir.

Klaus Joehle

 

Os pontos e as vírgulas
São como anjos que você sabe
Que deviam lá estar
Mas não pode ver
É por isso que pensa neles.

Klaus Joehle

 

Algumas palavras antes de começar

Na verdade, escrever este livro demorou muito tempo. Às vezes tenho medo da verdade, às vezes não quero que a verdade seja a verdade, e ao mesmo tempo há ocasiões em que me envergonho da minha verdade.

Vai ser difícil a leitura deste livro, e por isso gostaria de explicar um pouco como este mundo e o nosso universo funcionam. Acho que isso vai ajudar o leitor a entender o que aconteceu e porque é que as coisas parecem estar em todo o lado e porque é que várias coisas estavam a acontecer ao mesmo tempo. Quando pela primeira vez misturamos luz e treva ficamos confusos, sentimo-nos atirados para uma situação desconhecida de incerteza em relação ao que somos e como estamos. Alguns leitores já terão experimentado isto.

Para começar, quando estava a escrever o meu primeiro livro trabalhava com amor e tentava escrever sobre isso para que outros pudessem ver o que era possível, mas ao mesmo tempo havia também em mim um lado mais obscuro a tentar ajustar contas muito antigas, o que nada tem a ver com amor. Embora o primeiro livro seja verdadeiro, deixei de fora grande parte da verdade sobre aquilo em que me tinha tornado e o que tinha feito a mim mesmo com todas as minhas experiências. Tinha começado a abrir a porta ao amor e àquela parte amorosa de mim mesmo; mas tinha também aberto a porta àquela outra parte de mim mesmo, aquela parte obscura de mim mesmo que era capaz de matar e não sentir nada. De cada vez que me sento a escrever este livro começo a tremer fisicamente e o meu corpo fica gelado, por mais calor que faça. Alguns mestres dizem que é melhor deixar algumas portas por abrir, mas se você leu os meus outros livros já sabe que eu nunca poderia deixar essas portas em paz. Tenho algum medo e alguma vergonha mas não tenho remorsos. Acho que uma parte da minha vergonha provém do facto de que eu tornaria a fazer muitas coisas que fiz. Foi um caminho que tive de fazer, não interessando o seu custo, a mim e a outros. Dizem que não há vítimas e por vezes eu gostaria de acreditar para me sentir melhor; mas é muito difícil e eu receio estar a servir-me disso como desculpa para o que fiz. Vejam a coisa desta maneira: dizem que vivemos outras vidas, muito bem, mas quando aprofundamos a questão perce-bemos que essas outras pseudo-vidas estão na realidade a acontecer agora, neste momento. Uma vez que abramos essas portas, não podemos fechá-las; e tornamo-nos naquilo que somos nessas outras vidas, trazemo-las para esta vida; e isso ou é um perigo ou a glória.

É um perigo real, quase me matou e me devolveu à treva que eu esperava mudar. Se noutras vidas, outras probabilidades, as coisas nos estão a correr bem, então tudo bem, não é difícil aceitar; mas se abrimos portas que dizem “não abrir em circunstância nenhuma”, então há uma razão, uma boa razão. Pois que pensa o leitor que lhe acontecia se abrisse essas portas e descobrisse que você era de facto o demónio mais tenebroso que está agora a tentar deter? Como se sentiria ao descobrir que é o mais repelente que jamais andou pela terra e que não consegue fechar a porta, e que quanto mais tempo ela permanece aberta mais você se converte nele? Porque o que eu sou lá e o que eu sou aqui fundem-se um no outro. Se eu não tivesse aprendido a arte de enviar amor e como usar esse poder, não teria sobrevivido. A batalha não terminou; como é que eu posso vencer uma batalha contra mim mesmo? Tudo quanto posso esperar é que um veja a luz do outro, e que com essa esperança sobrevivamos ambos.

 

Infelizmente, a vida nem sempre se vai abrindo como as páginas de um livro ou as histórias dos livros. A história é completamente diferente quando nós a vivemos. Este livro foi difícil de escrever e, à sua maneira, vai ser difícil de ler. A vida pode ser simples e alegre, mas quando você parece que não se aplica o mais possível, então as coisas podem tornar-se um pouco difíceis e confusas. A história que eu conto neste livro, eu podia ter feito dela uma história plausível que segue uma certa ordem, mas ao fazê-lo já não seria a verdade; e o pior de tudo é que seria muito confusa para alguém que esteja a passar por algumas destas coisas. Ia parecer muito diferente daquilo que na realidade se passa quando se começa a abrir essas portas misteriosas. A vida não nos apre- senta as coisas de uma forma necessariamente bem escrita e ordenada; as coisas são como são. Por vezes vem o carro à frente dos bois. Muitas pessoas me escrevem a contar coisas que experimentam, e dizem não encontrar nos livros nenhuma referência a essas coisas e que por isso se sentem perdidas. Isto porque os livros são escritos para ser livros e não para explicar o impossível ou para mostrar verdadeiramente o que a experiência do impossível nos faz passar. Infelizmente, quando se persegue a verdade e se procura naqueles lugares ocultos, por vezes as coisas acontecem ao mesmo tempo, quase como se estivéssemos a viver duas vidas simultaneamente, e parece que estamos em dois lugares ao mesmo tempo. Não obstante, como é que havemos de escrever que estamos em dois lugares simultaneamente e temos ao mesmo tempo dois pontos de vista distintos quando normalmente nem se aceita que isso seja possível? Espero também que compreendam que o modo como vemos a realidade resulta de como são formadas as nossas vidas. E é pelo que vemos como verdade que vivemos e experimentamos as nossas vidas.

Se olharmos para a luz vemos luz, se voltarmos as costas vemos sombras. Isto devia dizer-nos qualquer coisa; mas é algo em que nunca pensámos, não é? É uma coisa trivial e não a vemos, mas afecta tudo quanto fazemos; e por não compreendermos que é assim e o que significa é que a experiência que nós temos dá nesta confusão. O que isto significa é que não vivemos na luz e não vivemos na treva, mas vivemos onde elas se encontram, precisamente no meio. Percebemos agora por que é tudo tão confuso, como se houvesse sempre forças opostas que trabalham num sentido quando nós caminhamos noutro sentido. É um lugar explosivo onde é difícil dizer qual o caminho que vai para cima. Há um equilíbrio e no entanto não há equilíbrio nenhum. Na melhor das hipóteses, há dois de tudo. Quando digo luz e treva não me refiro ao bem e ao mal, mas apenas a duas forças opostas, duas forças de contraste. É isso que torna este lugar são interessante: aparentemente é construído de um contraste colossal. O contraste exagera tudo até à enormidade, mas também torna tudo maior do que é. Por conseguinte, agora que você sabe um pouco mais do lugar onde escolheu experimentar a vida, já pode compreender a turbulência; uma verdade tão simples e que explica tanta coisa!

Antes de continuar quero dizer qualquer coisa acerca da luz e da treva. A treva não é má ou algo menos desejado por tudo o que existe. Pretende significar que a luz do criador brilha tanto na escuridão como na luz. A treva é simplesmente um contraste para se ver a luz mais claramente, e a luz é simplesmente um contraste para se ver a treva mais claramente. Ambas foram criadas com o mesmo amor por tudo o que existe. As acções das pessoas nada têm a ver com a luz ou a treva: são simplesmente acções. Não há mais maldade na treva do que na luz. De facto, na verdadeira treva só existe amor, tal como só amor existe na verdadeira luz. Luz e treva, ambas se sentam no regaço do criador, ambas foram criadas com o mesmo amor com que o criador cria todas as coisas. Podem pois perguntar: onde estamos nós? Estamos na luz? Estamos na treva? É aqui que reside a verdadeira magia. Magia é o amor de perguntar, de inquirir e de criar conscientemente aquilo que desejamos experimentar e como vamos  experimentá-lo, e até que ponto isso nos vai desafiar a crescer para além de qualquer noção de limitação.

Tanto nos condicionámos a nós mesmos que, sempre que alguma coisa má nos acontece, dizemos que deve vir da treva e não podia vir da luz. E acreditamos nisto com tanta convicção que, quando alguns viajam mais longe na luz e deparam com qualquer coisa que aparentemente não é tão agradável, automaticamente assumem que deve provir da treva e que não foram tão longe na luz como pensavam. Isto é incorrecto, e crer que é assim vai tornar o vosso percurso para a luz muito confuso. A inversa também é verdadeira: você pode viajar para a treva e encontrar lá precisamente o mesmo amor. Só não vai ver luz, é só, mas pode encontrar o criador lá, como em qualquer outra parte.

Portanto já vê que, vivendo nós onde a luz e a treva se encontram, pode ser confuso, porque na verdade é assim como se vivêssemos duas vidas ao mesmo tempo. Quando se juntam águas calmas e um rio que corre, temos águas turbulentas em que se mistura a lama com a transparência para formar algo de novo mas em mudança constante. É esta mistura que cria o que não se vê em mais nenhum lugar. É o que torna este lugar tão especial, tão confuso e sempre em mudança, sempre em contraste total, e é este contraste que produz a beleza real de ambas as águas. Ao fim de um certo tempo a água corrente muda, como todas as coisas, e assim a zona que estava em turbulência passa a estar numa treva de ricas águas turvas ou torna-se a luz de calmas águas claras. Estão agora a ver? A seu tempo estaremos na luz, que é a direcção em que caminhamos. Todavia, há a ilusão de que isto vai trazer paz; é uma ilusão. Havemos de ter paz, mas não por causa da luz; é natural mudar constantemente para algo que não somos, ou gravitar para o contrário. É por causa da turbulência que agora desejamos calma; e são os nossos desejos de paz que vão trazer a paz. Ora quando você trabalhar com o amor tal como expliquei no meu primeiro livro, vai transitar para aquelas águas calmas, primeiro criando calma em si mesmo e enfronhando-se na calma – nas águas claras e calmas da luz, por assim dizer. Nem toda a gente caminhará nessa direcção; alguns caminharão com amor para a calma da treva; e há também uma terceira opção: quando a treva se encontra com a luz, o turbilhão de duas energias convergentes cria outro lugar, ou, melhor dizendo, uma abertura para… vá lá! Chegados a este ponto você já devia ser capaz de me dizer que lugar é este, que porta é que ele abre…?

Pronto, pronto! Eu vou dizer, mas assim que eu disser  você vai dizer que já sabia…  Tal como expliquei com a luz e a treva - o que é que acontece quando estas energias se encontram - isto acontece em tudo, com todas as coisas e em toda a parte do mundo, com a natureza no universo e em tudo o que foi criado. Todas as coisas e todas as formas de energia têm o seu contrário, e quero mesmo dizer as coisas todas, mesmo até ao átomo. Assim, haverá sempre o que nós chamamos um lugar onde estas coisas opostas se encontram.

Isto é assim até com as pessoas. De cada vez que estas forças se encontram há uma reacção, uma energia cria uma espécie de vórtice. Devo dizer que luz e treva se encontram não só aqui onde vivemos mas também noutros lugares. Cada lugar será um pouco diferente, mas uma coisa permanece constante: forma-se uma espécie de vórtice que se abre. Agora você acha que a vida no lugar onde estamos é confusa e sempre a mudar este vórtice – uma palavra melhor daria a entender que isto é canja…

Bom, espero que o leitor continue comigo. E agora pense nisto: tudo o que fazemos, seja o que for, toda esta actividade, mesmo que seja de um átomo, causando a criação e mudando o que poderíamos habitualmente chamar energia; mas é mais do que isso. Usando uma analogia, podíamos dizer que o criador cria, e o que ele cria, por sua vez também cria precisamente o mesmo trabalhando por nós. Nós criamos um gerador, que se converte em electricidade, que se converte em qualquer coisa que cria mais qualquer coisa, como fundir o aço. Assim, o criador cria e o que ele/ela cria também cria. Está a ver? Suponhamos que um peixe iluminado consegue compreender a barragem e que a barragem cria energia para aqueles que a criaram. Mas ele não pode ver o que se faz com essa energia. No entanto vê a barragem e o gerador como uma espécie de vórtice, e se ele seguir os cabos eléctricos no seu trajecto vê os criadores, seres humanos dos EUA a criar coisas com esta energia. Assim ele poderá dizer oh, estes são os criadores que criaram os rios e as barragens e tudo o que existe. E isso não passa duma ilusão. Estes vórtices levam-nos, em certo sentido, a… qualquer coisa, mas que não é o criador mas apenas uma forma mais vasta da criação, pois o facto é que a criação que nós vemos e que nós somos é o criador, pois o criador cria-se a si mesmo em boa parte como seres humanos e toda a vida procura recriar-se a si mesma. Por conseguinte, se você quiser voltar à origem, se quiser ver o criador, olhe para dentro de si mesmo, que ele está no interior do seu coração; vai encontrar uma enorme centelha de poder infindável para criar seja o que for; eu chamo-lhe Amor. Por isso, quando você trabalha com amor caminha de mãos dadas com o criador; em certo sentido, está “em casa”. A “casa” não é tanto o lugar como é uma acção. É quando criamos à imagem do criador que podemos dizer que estamos em casa, isso é estar em casa. Quando abrimos essa válvula de amor interiormente, da forma como expliquei no meu outro livro, estamos a abrir o fluxo do criador; de facto ele/ela fica então a fluir livremente através de nós, e vamos ter em nossas mãos uma fonte ilimitada de poder para criar as fantasias que quisermos, a nossa alegria, o nosso amor. Agora já tudo faz sentido? Espero que sim. Mas!, ainda há mais, ainda não acabámos.

Tendo em vista verdadeiramente criar, não seria útil compreendermos um pouco do que já foi criado? Claro que sim, para enquadrarmos tudo numa forma temporária de compreensão a partir da qual podemos expandir a nossa compreensão. Por vezes, mas nem sempre, para compreender como uma coisa funciona é mais fácil primeiro considerá-la em separado e só depois no seu conjunto. Você vai perceber rapidamente, se realmente o compreendeu, porque se não compreendeu perfeitamente o princípio não tardará a pensar que ele não funciona. Tudo bem. Vamos então ao que se segue.

A ideia de que o mundo era plano veio de uns textos antigos que explicavam que havia mundos e mundos dispostos em camadas, como camadas de pedras. Em alternativa, podíamos falar numa gigantesca resma de papeis em que cada folha é um mundo muito semelhante ao nosso mas apenas um pouco diferente. Por outras palavras, o tempo não existe, é o tempo que dá a ilusão do movimento, mas de facto vivemos numa forma de infinitas realidades prováveis sobrepostas como papeis e expandindo-se como uma teia de aranha de quatro dimensões. Bom, você vê a dificuldade de explicar isto, mas vamos tentar de diversos modos.

Talvez alguns leitores estejam familiarizados com uma série televisiva chamada “Sliders”, em que um cientista descobriu um caminho de acesso a estes mundos prováveis e viaja agora de um para outro, na tentativa de regressar ao mundo donde pensa ter vindo. Claro que na série de TV ele pensa que nenhum dos mundos aonde vai é tão bom como aquele donde veio. No entanto, de outro ponto de vista, ele podia ficar onde está, onde tomou uma série de opções e viveu assim uma vida diferente.

Tenha isto presente na continuação e também o seguinte: nós criamos e depois aplicamo-nos a aperfeiçoar o que criámos, mas primeiro criamos, e é também deste modo que o criador cria; ele/ela cria e depois aplica-se a aperfeiçoar o que está criado, e é isso de facto o que nós fazemos com as nossas vidas. Em cada vida aplicamo-nos a aperfeiçoar o que já está criado; assim, na realidade, tudo o que já está criado, tudo aquilo em que podemos pensar, já existe, e o que fazemos agora é aperfeiçoá-lo; tal como o artista, colorimos os espaços em branco. Ora o que isto significa é que o passado ainda existe e o futuro também existe, mas tudo existe nas infinitas possibilidades que havia e nós fluímos dentro dessas intermináveis variações, aperfeiçoando mais e mais cada uma delas. Por isso é possível viajar para o futuro e para o passado dessa realidade que experimentámos ou para um bilião de variações do futuro. Ora cada momento é uma dessas folhas de papel. O mundo inteiro tal como o vemos está nele. Mas é apenas uma possibilidade em biliões do que podia ser em variações sem fim. Digamos então que você viaja ao passado e conhece os números da lotaria; segundo a teoria de alguns, você regressaria ao futuro e achar-se-ia rico. Mas não é assim que a coisa funciona; você podia viajar para o futuro, em que é rico, por causa de algo que você fez, mas podia também entrar no momento presente, em que tem infinitas possibilidades prováveis, em que de facto é rico, e essa parte de si experimentou uma memória de como se tornou rico. Bom, digamos então que você descobriu uma maneira de transitar de imediato para uma realidade que está a desenrolar-se agora em que você é rico – o que você teria descoberto é isto mesmo – mas você teria também todas as memórias associadas a essa experiência e não se lembraria que vinham da outra realidade. Isto está disposto desta maneira porque ficaria muito confuso ter duas memórias com dois resultados diferentes. Há na nossa mente uma barreira que separa cada memória para que não fique confusa e ao mesmo tempo não nos ponha malucos. Não podemos ir ao futuro a não ser que já lá esteja, e assim não podemos predizer o futuro a não ser que ele já lá esteja. Suponhamos que você está a predizer o futuro; o que você está a fazer é a adivinhar em que mundo provável é que o vai experimentar. Suponhamos que alguém diz que você vai ganhar a lotaria amanhã; de facto, se você puder pensá-lo, então é que já aconteceu; mas você vai entrar para o mundo que tem essa possibilidade? Aí é que está. Se entrar, vai experimentar ganhar a lotaria; se não entrar, não vai ganhar. Ora o truque está em saber como movimentar-se entre essas probabilidades, mas isso não é algo que você queira fazer até compreender as implicações do que lhe poderá acontecer e como isso poderá afectar a sua vida. É algo que acontece muito naturalmente a toda a gente todos os dias. Não damos por isso porque também desligamos as memórias e é o tempo que torna isso possível. É o tempo que nos faz pensar e que faz parecer que uma coisa acabou de acontecer quando de facto já lá vai. Às vezes levamos connosco algumas memórias e é então que temos a sensação de que fizemos qualquer coisa como ir às compras, quando na verdade não fomos; e no entanto lembramo-nos perfeitamente de ter ido às compras. Agora já você está a perceber! Por vezes, quando as pessoas envelhecem falam de coisas que aconteceram no passado e as pessoas presentes dizem que não foi assim que as coisas se passaram. Isto acontece quando aquela barreira na nossa mente abre uma brecha e liberta memórias de outras probabilidades que já ocorreram.

É assim que elas começam a penetrar nessas probabilidades enquanto se mantêm naquela em que estão; por vezes transitam para essa probabilidade. Você dirá agora: se é assim, então porque é que nós, aqui nesta probabilidade, continuamos a vê-las? Porque não existe tempo e portanto estamos em todo o lado o tempo todo; é o tempo que nos dá a ilusão da separação.

A pergunta seguinte seria: posso provar isso a mim mesmo? Claro que pode. Mas é isso que você quer? O preço pode ser elevado, especialmente se estiver a começar e não fizer ideia do que vai acontecer e for suficientemente louco para fazer coisas que lhe dizem que não deve fazer; a sua história pode então desenrolar-se tal como a minha, como verá se continuar a leitura. Eu pretendi assumir que não cuidava do preço ou do custo que isso teria para mim ou para outras pessoas. E foi assim que me meti na alhada em que fiquei. Há uma maneira de transitar, uma maneira que enriquece a nossa vida e até a de outras pessoas; há uma maneira de estar perfeitamente consciente de tudo isso e permanecer são. Eu era jovem e impaciente e só vi o que me estava reservado depois de perder o domínio dos acontecimentos, mas isso não é nada de novo. Se você prosseguir o seu trabalho com o amor da forma que expliquei no meu primeiro livro, a sua capacidade para entrar eventualmente em todas as probabilidades chegará naturalmente, lenta mas naturalmente.

E aqui está mais uma coisa que eu não vi durante muito tempo. À medida que você progride a enviar amor e a trabalhar com amor, começa a entrar nas probabilidades sem esforço e com alegria; mas, melhor ainda, vai na verdade mudar essas probabilidades para algo melhor. Como pode imaginar, mudar o que já está criado exigiria uma força ou um poder enorme, mas quando se trabalha com Amor, não lhe disse já que nessa altura é o criador que flui através de você?

Ah, mas ainda não acabámos isto. A ciência está lentamente a perceber que o átomo pode estar em mais de um sítio ao mesmo tempo. As implicações disto podem parecer desconcertantes, mas isso é justamente uma ilusão do tempo. Há apenas dois átomos no nosso corpo, o que podíamos chamar positivo e negativo – lembre-se da luz e da treva juntando-se e criando um vórtice de qualidades que é o nosso corpo; são os dois átomos em íntima conjunção a criar um vórtice e com o tempo a criar biliões deles – é assim que dois átomos formam o nosso corpo. Portanto você pode mais ou menos perceber como é que pode estar em todo o lado e transitar facilmente. Claro que isto é um exemplo extremamente simplificado e portanto ao mesmo tempo incorrecto.

Bom, vamos acabar este assunto de como as diferentes realidades possíveis comunicam umas com as outras e de alguns efeitos que isso tem em nós mesmo quando não temos consciência disso. Temos portanto muitos mundos prováveis e todos muito próximos, havendo entre cada um uma diferença perfeitamente minúscula ou uma diferença total. Lembre-se disto antes que eu diga mais qualquer coisa. Foi você que escolheu estar onde está, mesmo que não se lembre de ter escolhido. Por conseguinte, nesta altura há mundos prováveis já em paz e há mundos prováveis em guerra e alguns quase destruídos. Qualquer probabilidade que você possa imaginar, existe. Ora a parte realmente interessante é que nós, naturalmente, deslocamo-nos todos os dias por estes mundos prováveis, inadvertidamente, sem termos consciência disso. Assim, quando você deixa uma coisa num sítio e mais tarde vai encontrá-la em sítio diferente, você pergunta a si mesmo mas o que é que se passa. Repare que os mundos prováveis podem estar tão próximos que dificilmente notamos a diferença, a menos que sejamos extremamente observadores. Agora que falei nisto, já sei que alguns leitores vão dizer ah, agora percebo o que é que se passa, as coisas que eu vi começam agora a fazer sentido.

Mas há mais coisas a ter em conta! Lembre-se que no princípio eu disse que vivemos nos vórtices de luz e treva convergentes. Isto causa enormes falhas de energia que, poderíamos dizer, fazem as coisas desequilibrar-se um pouco. O resultado final é que os diferentes mundos prováveis drenam para dentro uns dos outros. Este é o lado divertido. Há no nosso mundo tanta confusão entre o que é e o que não é, que toda a gente parece acreditar em algo mais e acha que tem provas disso; no entanto não consegue prová-lo a mais ninguém. Isto é por causa dos diferentes mundos que drenam uns para os outros, mas como que de uma forma atabalhoada. Vou tentar explicar.

Você e o seu vizinho podem viver aparentemente no mesmo mundo; todavia, por causa do efeito de inter-drenagem, ele vive num mundo diferente, tão real como o seu mas não visível para si, tal como uma parte do seu não é visível para ele. Suponhamos que você acredita em extraterrestres, até já viu alguns, e houve um que lhe arrancou o seu dedo mindinho com um tiro; e você tem isso gravado em vídeo. Ao mostrar ao seu vizinho a gravação, ele vai julgar que foi forjada e vai arranjar pessoas da realidade dele que provam a falsidade, e você vai arranjar pessoas na sua realidade que provam que a gravação é verdadeira. Confuso, não é? Pois, é por isso que vivemos nestes tempos e nestes mundos tão confusos… Ora se você tiver lido o meu primeiro livro sobre enviar amor – e isso é real para si porque é o mundo em que você vive – você também vai encontrar pessoas para quem isto não significa nada, porque mesmo que você os veja e eles o vejam a si, eles vivem numa realidade onde isto não existe. É assim como se eu tivesse um livro da minha realidade e você tivesse um livro da sua e tirássemos algumas páginas dos nossos livros, as fotocopiássemos e metêssemos nos livros um do outro. Bom, haverá certas coisas em que concordamos, como o seu carro é azul, mas há realidades prováveis em que o seu carro é vermelho e você encontra pessoas que jurariam que o carro era vermelho, mas agora elas vêem que o seu carro é azul. A coisa piora quando os mundos prováveis se misturam, causando assim esta confusão, mas ao mesmo tempo estão constantemente em trânsito, mundos diferentes estão constantemente a misturar-se, mas isso de uma forma que também não é sempre igual. Ora o que isto quer dizer, tal como no exemplo que eu dei sobre o intercâmbio de páginas dos livros das nossas vidas e realidades, é que nós mudamos constantemente. O vórtice está constantemente a misturar os mundos, mas de uma forma que também muda constantemente. Vou tentar dar um exemplo. Por vezes acontece uma pessoa dizer qualquer coisa e mais tarde dizer que não disse, que o que disse era diferente. Não estou a falar de pessoas que mentem mas de pessoas que você conhece e em quem confia. Tenho a certeza de que isto já lhe aconteceu. Você dirá que ouviu o que disseram com toda a clareza, que elas gostavam de uma determinada coisa, e agora estão a dizer que nunca gostaram, seja lá o que for. Ora isso faz muita confusão porque ambos acham que têm razão, e de facto têm ambos razão. Se você acredita em extraterrestres e isso é real para si, provavelmente é porque na sua realidade, no seu mundo, eles existem, e o seu vizinho também tem razão quando diz que não existem, porque no mundo em que ele vive não há extraterrestres. Ambos os mundos são reais, um e outro, e normalmente não  combinariam deste modo, ou colidiriam deste modo. E agora atenção! Há também uma realidade em que o seu vizinho acredita em extraterrestres e até pode tê-los visto, e vive no mesmo mundo que você, mas, por causa dos vórtices em que estamos metidos, não é o que vocês estão a experimentar. Mas aqui é que está o busílis. Por causa dos vórtices, um dia você está a falar com o vizinho e descobre que ele acredita em extraterrestres. Você pergunta então quando é que isso aconteceu, que você nunca acreditou em extraterrestres, e o seu vizinho vai olhar para si como se você parecesse esquisito, e vai dizer que sempre acreditou e que você discutiu isso muitas vezes. É que a probabilidade transitou de nível, mas a sua memória, que também devia ter transitado, não. Normalmente as nossas memórias deslocam-se quando vagueamos nas probabilidades, mas por causa dos vórtices nem sempre isto acontece; assim, você pode mudar de nível e continuar a lembrar-se de como era antes. Claro que você vai pensar que está a perder isso, mas não está. Uma vez que compreenda o que está a acontecer, é fácil lidar com isso e pode ser muito divertido.

Vamos então avançar um pouco mais. Talvez você sinta que isto vai continuar eternamente. Mas não, porque os vórtices de luz e treva a misturarem-se não é uma realidade em toda a parte e em todas as probabilidades, e algum dia você poderá, lentamente, pouco a pouco, transitar para probabilidades onde esses vórtices já não existem. Ora, parece que isto também depende do sítio do mundo em que se vive, de algum sítio em particular que afecta a intensidade com que estes vórtices deslocam as probabilidades e as misturam. Alguns lugares são mais afectados do que outros, mas isso também muda de tempos a tempos. Com tudo isto, alguns leitores que leram o meu primeiro livro estarão a perguntar o que é que isto tem a ver com enviar amor.

Pois bem! Seja qual for o lugar onde você está, em que probabilidade e em que mundo, você tem uma fonte de energia. Pode ser mais aparente em si e mais escondida noutros, mas existirá sempre seja qual for o nome que lhe dê. Porque é o que você é; sem ela você não existiria. Então que efeito tem neste vórtice o enviar amor?

É fácil. Primeiro você tem de se lembrar que quis estar aqui e por uma boa razão. É um lugar absolutamente emocionante. Ora, enviar amor não o tira daqui a não ser que seja esse o seu desejo; em vez disso, vai criar um vórtice próprio que lhe dará o melhor de todas as coisas, proporcionando-lhe a vida e as experiências mais felizes. Vai atrair o melhor para si num dado tempo. Oh, cá vem outra vez a palavra tempo… Não é coisa boa, deixe que lhe diga. O tempo é o senhor das ilusões. O tempo fá-lo pensar que fez uma coisa ontem quando afinal está a fazê-la agora mesmo. Você pode agora imaginar que, se começar a dar pontapés nas portas fechadas do tempo, as coisas poderão tornar-se um pouco complicadas. Tanto assim que o que podia ter sido outra vida, da qual por vezes nos apercebemos de certas coisas, pode de facto aplicar-se à vida presente, misturando-se com esta vida. Você não saberá se é um bárbaro a sonhar que é um contabilista ou um contabilista a sonhar que é um bárbaro. Que aconteceu? De repente, o bárbaro é capaz de fazer contas e o contabilista quer trabalhar no seu selvático plano de ataque. Bom, você percebe o que está agora a acontecer, não percebe?

Quer que eu continue?

 

Criar a vida que nós queremos
É muito como esculpir a pedra
Qualquer bom escultor
Sabe que esculpir a pedra não a converte numa forma
Mas é a pedra que é removida
Para revelar a forma que tem implícita

 

UM

No Verão de 2000, a minha mulher, Roberta, foi a Edmonton visitar o filho. Resolvi ficar em casa para trabalhar em várias coisas que têm a ver com a energia do amor. Tinha começado este livro um ano antes, mas interrompi; estava totalmente insatisfeito com ele. Na minha opinião não servia para nada. Eu estava a tenho estado a trabalhar em algo mais elaborado e produtivo. Pelo menos em minha opinião, o universo, como de costume, estava em desacordo comigo. Os meus guias diziam-me que acabasse de contar o resto da história antes de passar para o que vinha a seguir no plano. Diziam que isso ia criar a base para o que havia de vir. E muitas pessoas me escreviam também a perguntar quando é que eu contava o resto da história. Para mim não tem novidade nenhuma. Por outro lado, contribuía para a compreensão de que enviar amor é um caminho e não o clique de um interruptor, como eu esperara em tempos. Por vezes a minha impaciência leva a melhor comigo.

Quando estava a reler o que havia escrito, simplesmente resolvi apagar tudo e partir para um pequeno passeio pelas montanhas na mira de uma orientação. Achei que talvez fosse dar a um lugar energético não muito longe de Calgary, Alberta. Há ali um amplo vórtice que não difere muito daquele que fica em Sedona. Este lugar é um pouco diferente mas tem características idênticas. É engraçado, mas as pessoas viajam daqui para o mundo inteiro para visitar lugares especiais e não se apercebem que estão a uma hora de caminho de um lugar muito especial e energético. Só que tem sido cuidadosamente ocultado. As pessoas acham que os lugares mais energéticos do mundo estão assinalados. Nada disso, é precisamente o contrário. Nenhum shâmane seria suficientemente tolo para assinalar estes lugares para que toda a gente lá pudesse chegar. A única ocasião em que isso acontece é quando um lugar muda e fica pronto para as pessoas em geral. Mas nessa altura já os shâmanes deslocaram as energias para outro lugar. Se lá forem talvez vejam o que parece ser um vórtice minúsculo; é como o de um iceberg. O que jaz por baixo faria a maioria dos outros vórtices parecer insignificantes. Não é para corações fracos. Mais tarde digo-vos como lá chegar e o que se pode esperar. Por agora vamos ao resto da história.

Depois de apagar tudo o que tinha escrito vim para aquele lugar. No caminho passei por um posto de gasolina que estava fechado há anos. É o mesmo posto de gasolina de que falei no princípio do meu primeiro livro, “Living on Love “The Messenger”. Podem ler nesse livro o que aconteceu lá, pelo que não vou agora entrar do assunto.

Ao passar por esse posto de gasolina achei que devia parar para comer qualquer coisa, já que ia ser um trajecto longo até ao lugar que tinha em vista. Depois de estacionar o carro dirigi-me à parte de restaurante do posto de gasolina. Não tinha mudado muito. Havia meia dúzia de pessoas no restaurante, a maioria motoristas de camião a tomar café. Sentei-me num dos bancos do balcão. Enquanto a empregada conversava com os motoristas, fui vendo a lista que estava em cima do balcão. Dentro de um recipiente de vidro estava o que parecia ser um belo pudim de maçã caseiro. Antes de a empregada me abordar já eu me decidira pelo pudim de maçã e chocolate quente. A empregada disse adeus aos motoristas que saíam. Quando ela se aproximou do balcão, as pessoas numa outra mesa também se levantavam para sair. O meu lugar preferido para me sentar num restaurante, pensei comigo.

 - Então, jóia, o que é que lhe posso servir hoje? – perguntou a empregada.

Reconheci-a de imediato. É uma cara que não se esquece. A cara menos parecida com um anjo jamais vista. Mas que parvoíce! Estás a julgar as pessoas pela cara, pensei com os meus botões. Um dia hei-de arrancar da cabeça essa parte do meu cérebro. Às vezes não consigo suportar-me. Ela não era feia, era só mais parecida com um motorista de camião do que com um anjo. Acho que foi o medo de ser reconhecido e envergonhado que deu origem a um juízo daqueles. Afinal eu devia-lhe muito pela amabilidade com que ela me tratara muito tempo atrás.

 - Vou no pudim de maçã e no chocolate quente, obrigado! – respondi timidamente. As palavras que idiota eu sou bailavam-me no espírito ao ponto de se tornarem o refrão dum espectáculo musical; tudo o que eu precisava era de um idiota a dançar para completar o espectáculo, e isso consegui eu logo que ela pôs a chávena de chocolate na minha frente.

 - Aí tem, jóia – disse ela. Não só consegui entornar a chávena como também despejá-la por cima do avental dela.

Ela riu principalmente das quarenta manchas vermelhas no meu rosto. O cozinheiro espreitava pela janela por onde passava a comida.

- Gostei dessa! – berrou ele rindo na minha direcção.

- Oh, as minhas desculpas! Você está bem? – perguntei.

- Tudo bem, Klaus – respondeu ela.

- Quê? Como é que você sabe o meu nome? – perguntei eu, tentando ajudá-la a limpar o avental.

- Ora, ora, acha que eu ia esquecer? Você não é aquele que andava na auto-estrada para lá e para cá há uns anos atrás?

- Sim, era eu – respondi, com um embaraço que atingia o nível nove.

- Mas como é que sabe o meu nome? Eu disse-lhe como é que me chamava?

- Não. Há umas três ou quatro semanas vieram aqui umas senhoras fazer umas perguntas. E perguntaram se eu tinha lido o seu livro – respondeu ela, afastando-se para ir buscar mais chocolate quente e deixando-me suspenso.

Ela pousou o chocolate quente ao passar por mim e foi buscar o meu pudim. Mentalmente enviei-lhe uma mensagem: um pedaço grande, grande, grande…

Resultou: trouxe-me o que seria talvez metade do pudim.

- Aí tem – disse ela, estendendo a mão para o chocolate. Pousou o chocolate mas continuou com as mãos em cima dele. Na expectativa, as minhas mãos mantinham-se no regaço.

Com a outra mão ela tirou de debaixo do balcão uma taça de sobremesa de creme. Se um extra-terrestre viesse a minha casa e perguntasse quais as duas coisas que eu preferia, ficaria a saber durante a visita. Eu dir-lhe-ia chocolate e creme, ou melhor, os dois ao mesmo tempo. É para isso que a vida serve. É o que me faz vibrar.

Ela segurava a chávena de chocolate quente e a taça de creme como isco. Olhou-me bem nos olhos e disse: - Então, como é o resto da história?

Eu sabia que se me esquivasse não ia haver taça de creme. Por isso respondi com uma pergunta: - Você quer saber o resto da história?

- Você quer a taça de creme? – perguntou, acenando com ela.

- Está bem - disse eu. – Mas como é que você sabe do livro e o que é que essas pessoas queriam saber? – perguntei. Admito que estava um pouco preocupado.

- Ed, sai daí para fora. Vais querer ouvir isto! – berrou ela, com grande susto meu.

Ouvi uns pratos a bater e, passado um minuto, vi um homem aproximar-se do balcão limpando as mãos a um pano. A empregada encheu-me a chávena de creme. Fazia um monte tão alto que não havia hipótese de chegar ao chocolate. Uma espécie de desafio. Da maneira que eu gosto. Nham, nham para a minha barriga…

- O que é, Sally? – perguntou Ed por trás da empregada.

Percebi que havia ali mais qualquer coisa… que eles eram mais do que colegas de trabalho. Ed tinha amor nos olhos, sem dúvida.

- Este é o Klaus – respondeu Sally, apontando para mim excitada.

Ed estendeu a mão e eu estendi a minha. Ao apertarmos as mãos pude ver nos olhos dele que não fazia a mínima ideia do motivo desta apresentação.

- É este o tipo, tu sabes, o livro, o tipo de que eu te falei que andava para trás e para diante na auto-estrada… o livro que aquelas senhoras deixaram aqui.

- Não! É mesmo você? – respondeu Ed. – Ei, que livro formidável! Eu teria sentido grande dificuldade em acreditar nalgumas coisas se não fosse a Sally contar-me a história de você andar na auto-estrada para lá e para cá.

- Obrigado, julgo… - disse eu, levando à boca um pedaço de creme.

- Ele vai contar-nos o resto da história – disse Sally.

- Estou nessa – respondeu Ed. – Mesmo na hora! Vou buscar uma cadeira.

- Que é isso de mesmo na hora? Como é que você arranjou o livro? E o que é que essas senhoras queriam? – perguntei, levando à boca mais um pedaço do pudim de maçã. Eu sabia que ia ser agora ou nunca.

Ed contornou o balcão a grande velocidade com uma cadeira nas mãos. Atirou-se para cima dela como se o tempo fosse da máxima importância.

- Mesmo na hora – disse Ed, olhando para Sally.

- Partimos para Sedona na semana que vem – disse Sally.

- Por que vão para lá? – perguntei.

Ed olhou para Sally, Sally olhou para Ed. Ed respondeu: - Apenas porque achamos que é a coisa certa a fazer, como se fôssemos atraídos para lá.

- Há tempo que andamos a poupar dinheiro para isso – respondeu Sally. Também temos andado a praticar o enviar amor já há algum tempo e sentimos que devemos fazer a viagem.

- Estão a pensar em viver lá? – perguntei.

- Sim, queremos lá ficar o tempo que nos parecer certo – respondeu Ed.

- Sempre desejei ir lá ver aquilo – respondi. – Só que ainda não foi oportuno. Mas é um desafio que está nos meus planos. E vocês, como é que vai a vossa prática de enviar amor?

- Mesmo muito bem – respondeu Ed. – Temos feito algumas experiências com resultados muito interessantes. Conta-lhe, Sally!

- Mas eu gostava de saber das tais senhoras e o que é que elas queriam – interrompi.

- Ah, elas vieram aqui fazer perguntas sobre uma história que tinham ouvido, sobre um tipo que andava na auto-estrada para baixo e para cima. – Sally ria agora. – Eu disse-lhes que me lembrava e então elas ficaram muito interessadas e quiseram saber a história toda. Eu perguntei-lhes porquê e elas mostraram-me o seu livro. Não era um livro mas umas folhas impressas. Mostraram-me a parte em que você escreveu sobre aquilo. Foi então que eu fiquei muito interessada porque até aí eu não conhecia a história toda. Quando elas estavam para se ir embora deixaram o livro comigo. Disseram também que iam tentar descobrir alguns lugares especiais nas montanhas que tinham ouvido dizer que você conhecia. Eu não sabia de que se tratava.

Deixei cair o garfo. C’os diabos!… como é que elas tinham sabido disso? – murmurei para mim mesmo. Vão conseguir mais do que aquilo que andam à procura.

- Sabe quem são?... os nomes? – perguntei.

- Só os nomes próprios – respondeu Sally.

- Mas porquê? Qual é o problema? – perguntou Ed.

Peguei na chávena de chocolate quente e suguei um montinho daquele suave e maravilhoso creme.

- Agora não interessa, acho que é o que é e pronto. Posso dar-vos uma pequena sugestão, algo para reflectirem antes de irem para Sedona? – respondi, mudando de assunto.

- Claro! – respondeu Ed, e Sally acenou com a cabeça.

- É assim – disse eu. – Antes de irem para Sedona e antes de irem para qualquer lugar energético, seria muito benéfico se se concentrassem em abrir o coração e enviar amor. Os lugares energéticos reforçam as coisas que são importantes para vocês e as coisas em que concentram a vossa atenção. É por isso que certas pessoas não aguentam lá ficar muito tempo. Se uma pessoa tiver muitas crenças e pensamentos negativos, eles são reforçados da mesma maneira. A coisa concentra-se naquilo em que a pessoa está concentrada. Estão a ver o que eu quero dizer? Se estiverem apreensivos, vão ter qualquer coisa com que se preocupar. Se enviarem amor, vão ter algo que amar e vão atrair mais amor.

- Esse ponto  é importante – respondeu Ed.

- Temos estado a trabalhar em enviar amor – disse Sally.

- É bom que continuem, pois assim vai correr tudo bem convosco. Pelo menos foi o que descobri com as minhas experiências.

Passámos algum tempo conversando disto e daquilo enquanto eu acabava o meu creme. Pensei que o universo me tinha dado uma oportunidade de contar o resto da história duma maneira muito semelhante à da última vez. Por isso resolvi aceitar o oferecimento.

 

Trazer o amor

Mostra-me um caminho que os anjos receiem trilhar

Talvez eu entre nele gritando

Provavelmente sairei dele gritando

Mas nunca mais vou recear caminho algum

Pois eu só caio quando me esqueço de trazer o amor

 

 

 

DOIS

Quando eu me preparava para contar o resto da história já o Ed tinha trazido outra cadeira para a Sally se sentar. Eles pareciam combinar bem os dois; eu simpatizava com eles e queria dar-lhes qualquer coisa para iniciarem a nova jornada com amor. O posto de gasolina estava muito concorrido mas o restaurante estava vazio.

Esfregando a testa, disse eu: - Também podíamos começar pelo princípio. – Esta história é bem mais difícil de contar do que a primeira. É como se pedíssemos a uma árvore para nos contar a sua história; ela não compreende o que estamos a pedir, porque ela é mais do que tronco, ramos e raízes. Mesmo estando ligados todos os ramos e folhas, todos experimentam coisas diferentes, cada ramo e cada folha tem uma vida própria. A árvore pode estar numa floresta onde brilha o Sol, mas nem todos os ramos recebem a sua luz; uns estão do lado húmido e sombrio, outros do lado mais seco e soalheiro. Alguns sentem a força da tempestade, outros quase não dão por ela. Assim, aquilo em que a árvore, como um todo, se concentra depende da experiência que tem. Identicamente com as pessoas. Podemos ser despedidos de um emprego e sentir e vivenciar muitas coisas diferentes, tudo ao mesmo tempo, mas são as coisas em que predominantemente nos concentramos que vão formar as nossas memórias. Podemos sentir-nos zangados, traídos, e podemos sentir alegria, medo, liberdade, esperança de novas oportunidades, tudo ao mesmo tempo. Recordo-me de ter sido despedido de um emprego que não me agradava mas de que precisava pelo dinheiro. O que eu conservo é um sentimento de liberdade e alegria; saboreei cada momento. O tempo estava quente e soalheiro e eu passava muito tempo no parque, desfrutando o lazer e a liberdade de repensar a minha vida. Havia esforço e luta, mas não os recordo porque não era isso que me ocupava o pensamento. É aí que o enviar amor se evidencia, porque desse modo estamos a concentrar-nos em coisas positivas, em possibilidades positivas. Mesmo abstraindo do que o amor pode fazer, a situação já se vai tornando mais positiva. Acrescente-se então a possibilidade de o amor trabalhar para nós e não tardamos a ter uma experiência muito agradável que poderia ter sido devastadora.

- Estão a ver o que eu quero dizer? – perguntei.

- Sim. Concentra-te e envia amor, e é isso que vais encontrar – respondeu Ed.

- Não é só isso, mas é isso que vamos recordar – respondeu Sally.

- Há coisas bastante dramáticas – disse eu – e só há uma maneira de as encarar; como quando um ramo é arrancado por uma tempestade. São essas coisas que determinam a forma como vemos o mundo e as nossas vidas; é assim que as nossas experiências determinam a nossa personalidade. Porventura a única coisa capaz de curar essas cicatrizes e evitar que aconteçam mais coisas desse género - é o amor, o perdão. Isso deixa-nos com dois tipos de experiências: aquelas que podemos encarar como oportunidades para ver o que há de melhor naquilo que pode não parecer o melhor, e o tipo de experiências em que precisamos de ter amor e perdão para lhes sobrevivermos, para que não afectem o resto da nossa vida.

Houve um momento de silêncio antes de prosseguir.

A primeira coisa de que temos de falar é a minha incapacidade para escrever.

- Isso mesmo: não percebo nada de ortografia. Sou capaz de ler fluentemente, mas não de escrever, pelo menos numa linguagem terrena. Não tenho sido capaz de perceber para que é que me serve escrever numa linguagem que ninguém consegue ler senão eu, mas as coisas são assim mesmo.

Ed ia dizer qualquer coisa mas eu continuei.

Em tempos tentei aprender a escrever, mas parece que até as minhas aptidões para aprender estão bloqueadas. Muito estranho, não acham? Principalmente dado que a minha missão nesta vida era escrever dois ou três livros sobre este tema de enviar amor. É isto que eu quero dizer: a minha inaptidão para escrever é como um ramo da minha vida. Mas não é um ramo com que eu nasci, antes um ramo que veio mais tarde.

- Aí está uma coisa que sempre achei estranha na vida – acrescentou Sally. A minha mãe dizia sempre que recebemos os nossos dons na mesma caixa dos desafios.

- Ora aí está, e é bem verdade – comentou Ed.

- Donde veio essa inaptidão para escrever? – quis saber Sally.

- E a outra linguagem? – perguntou Ed.

- Ei, calma aí… uma coisa de cada vez – respondi.

- Pois, deixa-o contar a história – disse Sally, dando um safanão no Ed, que entrou numa brincadeira de safanões em que um e outro não conseguem ter as mãos sem se tocarem reciprocamente.

Esperei que eles acabassem a traquinice e depois continuei. Bom, é difícil dizer se o meu problema ortográfico é um ramo quebrado ou um ramo acrescentado. O veredicto definitivo ainda não é conhecido. Até agora a minha inaptidão para escrever tem-me provocado muitos contratempos e nunca foi resolvida a contento no que respeita ao trabalho. Como devem imaginar, subir na escala pode ser um problema. Há uma razão para a minha inaptidão para escrever, e acho que é precisamente por aí que devemos começar esta história: como é que tudo isto começou. A outra linguagem em que sou fluente é uma linguagem muito complexa que levaria muito tempo a aprender, mas ela existe. Desde que eu explique donde vem o meu problema com a ortografia, vocês podem chegar às mesmas conclusões que eu quanto ao facto de ter ficado apto a escrever noutra linguagem. Esta outra linguagem usa símbolos e cada símbolo é histórias, por assim dizer. Pondo os símbolos, e portanto as histórias, numa certa ordem, cria-se uma nova história, a história que estamos a tentar transmitir. É complicado, mas é simples; 24 linhas com 4 a 8 símbolos em cada linha explanariam este livro. Por outras palavras, este livro podia caber num cartão de visita.

Parei para sorver mais um bocado de chocolate quente e acender um cigarro. Estirando um braço para trás, Ed alcançou um cinzeiro que colocou diante de mim. Pensei que aquilo era sinal de fume à vontade.

- Bom, vamos a isto! – disse eu. – Nasci na Alemanha, em Freiburg, em 24 de Setembro de 1957. Anos depois os meus pais mudaram-se para uma cidade turística chamada Titisee, naquilo a que se chama a Floresta Negra. Compraram lá um hotel. Se perguntarem a vinte pessoas porque é que se chama Floresta Negra é provável que recebam vinte respostas diferentes baseadas em motivos simples e lógicos; e como as árvores são muito escuras, não vão lá à noite. Para mim a floresta era um lugar incrível de paz, mistério e aventura. Havia lá outras coisas que eu não compreendia mas aceitava como eram. As árvores e o mistério da floresta eram tudo aquilo de que eu precisava; aquela floresta, aquelas árvores, eram para mim segurança e amor, e também minhas amigas; eram, por assim dizer,  os meus únicos amigos. As pessoas eram muito supersticiosas e, na minha opinião, muito estranhas, ainda que não se considerassem como tais. A cidade de Titisee podia ser tão calma e tranquila como um lago em dado momento, e tão movimentada como uma colmeia no momento seguinte, dependendo do influxo de turistas. A cidade e a área circundante era constituída principalmente por hotéis, pequenas lojas para turistas e quintas. Nalguns aspectos era moderna mas noutros lembrava os tempos medievais. Parte da população tinha dinheiro, a outra tinha pouco. Os senhores do comércio andavam de Mercedes e os donos das terras ainda mungiam as vacas à mão, e à mão faziam as colheitas, o feno e as batatas, por exemplo, ganhando a vida com dificuldade. Era como se dois mundos estivessem sobrepostos num só. A principal preocupação de algumas pessoas era onde passar férias na época calma, a das outras era se seriam capazes de pagar os impostos. Os comerciantes viviam em sítios fantásticos, ao passo que outros viviam em lugares que nos faziam recuar duzentos anos. Para algumas pessoas, as respectivas residências, os currais dos porcos e das vacas e as capoeiras – era tudo o mesmo edifício. Abria-se a porta da cozinha e logo na divisão ao lado podiam estar os porcos na pocilga, à espera dos restos de comida. Tudo isto era pelo menos muito estranho e confuso para mim. Por alguma razão, mesmo agora, que vos estou a contar isto, estou a sentir os cheiros que havia nas casas daquela gente.

- Quando estive do outro lado do oceano com o exército também vi muito disso – disse Ed dirigindo-se a Sally, que fazia umas caretas engraçadas.

- Ainda hoje há sítios assim, mas não tantos – disse eu. E prossegui. No tempo de que estou a falar tinha eu 6 ou 7 anos. Os meus pais eram proprietários de um hotel e trabalhavam desde manhã cedo até à noite; só paravam quando o último hóspede se recolhia. Nesse tempo já a minha mãe estava muito doente. Eu não percebia o que era um cancro. Ela ou estava no hospital ou em casa na cama, o que implicava ainda mais trabalho para o meu pai. Assim, cresci sem orientação paternal e muito pouca, se é que alguma, influência da televisão. Isso teve em mim um efeito muito estranho. Há muitas coisas que aprendemos com os outros desde tenra idade; as implicações são bastante desconcertantes. Muitas pessoas chegaram à conclusão de que as crianças possuem certas aptidões que mais tarde são suprimidas por influências externas. Se eliminarmos essas influências, as coisas poderão ser completamente  diferentes. Eu via o mundo com os meus próprios olhos e pensamentos, não influenciado por aquilo em que os outros acreditavam. Era capaz de aceitar ou rejeitar o que via e testemunhava sem nenhuma influência do que os pais ou a sociedade me queriam fazer crer. Isso fez de mim um intruso, uma espécie de marginal. Se uma criança é educada por um pai que crê em certas coisas, não interessa se verdadeiras ou não, há uma grande probabilidade de essa criança também vir a aceitá-las. Muitas vezes sem qualquer contestação, sem quaisquer influências, eu via as coisas de maneira completamente diferente. Nem os meus actos, o meu comportamento, nem os meus padrões de pensamento era moldados por ninguém nem à maneira de ninguém.

Parei para pegar num guardanapo e escrevi estas palavras à medida que fluíam no meu pensamento:

Parece que nos recessos obscuros das nossas mentes há pensamentos em que não nos atrevemos a tocar nem a expressar, com receio das represálias de outros. Há também coisas em que não ousamos acreditar pelas mesmas razões. Por vezes criamos aquilo em que acreditamos depois de nos convencermos de que é a verdade, criando-o desse modo para ser a verdade, quando afinal não é mais do que uma ilusão da verdade. Chegamos a ficar tão convencidos que, mesmo em face de uma prova em contrário, recusamos reconhecê-lo. Às vezes convencemo-nos de que é melhor viver uma mentira do que enfrentar o rigor da verdade. É algo que todos sabemos bem demais. Mas vivendo essa mentira transmitimo-la aos nossos filhos. É um crime de que também eu sou culpado, mesmo sabendo-o melhor.

Em seguida li o que tinha escrito ao Ed e à Sally.

- Você toma sempre nota das coisas à medida que lhe ocorrem? – perguntou Sally.

- Tento – disse eu. – Nunca se sabe se terá alguma utilidade, se surgirá ocasião de o rever mais tarde.

Voltando à história, suponho que por causa da minha independência e da necessidade de cuidar de mim mesmo, comecei a rejeitar quase tudo o que ouvia aos outros. Não tinha amigos. Os ricos não queriam que os filhos brincassem comigo porque eu não era controlável e não dava valor ao que eles possuíam. Também os pais de famílias pobres não queriam que eu brincasse com os filhos deles, mas principalmente por medo e superstição; por alguma razão, pensavam que eu era qualquer coisa de maligno ou coisa que o valha. Eu via isso nos olhos e no procedimento deles. Por vezes quase tinham medo de mim, mas não percebia porquê. Havia quem mostrasse simpatia por mim, mas muito raramente e só em função de outras pessoas que estivessem a ver.

- Esquisito, não é? – disse eu. – Em certos aspectos era quase como viver na idade das trevas.

Não obstante, lá fui vivendo bastante feliz, passando a maior parte do tempo nos bosques ou no lago. Tinha o que se poderá chamar um amigo invisível; expliquei isto no meu primeiro livro, mas infelizmente não posso alongar-me sobre este amigo ou sobre o nosso relacionamento. As memórias são muito vagas e não resta mais que uns fragmentos, uns relances, uns vislumbres. Eu seu que havia mais, mas neste momento a porta dessa parte da minha mente está fechada. Já lhe dei murros e pontapés, mas ela recusa abrir. Assim, vou deixar isso por enquanto e continuar com o resto tal como o recordo.

Pedi água a Sally e esperei por ela antes de prosseguir.

Como os meus pais estavam ocupados a gerir o hotel e por causa da doença da minha mãe, claro, eu tinha liberdade total para ir para onde queria e para fazer o que me apetecia. Acho que não me aborrecia de estar sozinho, aliás eu não estava completamente só. Olhando agora para trás, lembro-me de sentir como se andasse a ser observado, talvez até vigiado; sentia isso especialmente na floresta. Um dos primeiros incidentes que me ocorrem foi quando levei para casa uma carroça que encontrei na floresta; era uma carroça grande para transportar lenha para queimar e que tinha grandes rodas de madeira. A ideia não era roubá-la, apenas levá-la por um bocado. Parecia o carro perfeito para descer a montanha e eu tinha a montanha perfeita no pensamento: era uma estrada estreita e comprida mesmo ao lado do nosso hotel, muito íngreme mas recta; bom, quase. Não era um projecto ocasional e precisou de ser planeado com cuidado. Meio dia para levar a carroça até ao topo da montanha, depois descer várias vezes e depois devolvê-la no dia seguinte.

Pus-me a caminho de madrugada para ir buscar a carroça. Ao empurrá-la através da floresta senti calafrios na espinha. Parei várias vezes para olhar à volta, mas como não vi nada continuei o caminho.

Depois de chegar ao destino no alto do monte, preparava-me para descer na carroça quando um moço chamado Richard se aproximou. Já o tinha visto muitas vezes nos meus passeios e pensei que ele queria que fôssemos amigos, mas acho que ele tinha um certo receio de ser visto comigo. Perguntou o que é que eu estava a fazer e eu contei-lhe, muito excitado, como aquilo ia ser divertido. Depois de eu fazer a primeira viagem ele quis ir também. Saltou para dentro da carroça e eu disse-lhe que se sentasse atrás e se ocupasse do travão, que eu guiava. Depois de lhe explicar como usar a vara que lhe dei como travão (esfregando-a contra a roda), partimos. A velocidade excedia as minhas expectativas e todas as experiências anteriores. A velocidade tornou-se um problema, talvez por causa do peso extra, e o travão era praticamente inútil. A velocidade aumentara a tal ponto que Richard teve de atirar fora a vara para se poder agarrar; mas o problema seguinte avizinhava-se bem mais depressa do que eu imaginara: a condução pouco efeito tinha. As rodas de madeira tinham a envolvê-las uma tira de aço que fazia contacto com o pavimento.  Virei a roda na direcção da pequena mancha de erva no final da estrada, precisamente quando a carroça corria para a estrada principal; as rodas não se agarravam. Mesmo que se agarrassem, àquela velocidade isso não teria ajudado grande coisa, pois não havia meio de parar depois de chegarmos à pequena mancha de erva. A mancha de erva não era mais que um carreirito que ia dar a um aterro que caía a pique sobre a estrada principal. Já não havia tempo para nada senão aceitar as coisas tal como eram. De repente as rodas começaram a agarrar e começámos a curvar. A 5 ou 6 metros do carreiro a carroça teve uma paragem súbita. Não parou propriamente; as rodas da frente travaram e a carroça empinou-se e catapultou-nos para o ar como foguetes. Fomos pelo ar pelo menos outros 6 metros, mas, por alguma razão, Richard pareceu ultrapassar-me a voar e foi cair no chão uma fracção de segundo antes de mim; na verdade amorteceu a minha queda, pois eu aterrei precisamente em cima dele. Depois de nos levantarmos, aproximei-me da carroça para ver o que a tinha feito parar, mas não havia nada, nem sequer uma pedra. O percurso da carroça estava completamente livre de obstrução. Richard ergueu-se e ficou onde estava, não se aproximando da carroça. Empurrei a carroça para trás e para diante e disse que estava tudo bem. Richard voltou-se e foi-se embora. Obviamente não era dia para novas alianças ou amizades, tudo por causa dum ligeiro erro de cálculo.

- Devia haver uma razão para você não ter amigos – interrompeu Sally a rir, segurando a cabeça como se houvesse um desastre em perspectiva.

- Podia ter acontecido a qualquer um – disse Ed sorrindo. – Gostava de ter lá estado.

- Podia ter morrido! – disse Sally.

- Pois… - disse eu, encolhendo os ombros. – No entanto, um ou dois anos mais tarde tornámo-nos amigos durante um curto período. Pelo que ouvi dizer, ele tornou-se electricista e tem a sua própria família. Por vezes pergunto a mim mesmo como será a história vista pelo lado dele. Não teria sido como foi se não fosse ele!

- Bom, aposto que você não vai cair noutra! – comentou Sally.

- Mais tarde fiz isso com o meu filho – disse eu. – Ainda hoje ele fala disso. Diz que foi o dia em que o meu pai me levou a voar. Mas isso é outra história para outra altura.

 

Desejo

 

Oh estrela tão brilhante

A primeira estrela que eu vejo esta noite

Como eu desejo, como desejaria

Ter o sonho

Que adorei na noite passada

 

 

TRÊS

Depois de a Sally se acalmar prossegui com a história.

Embora fossem muitas as coisas estranhas que aconteciam na floresta, esta foi a primeira de uma série de quatro ocorrências que posso reduzir a escrito. Antes de referir um incidente verdadeiramente singular, quero falar-vos de um sítio muito estranho na floresta. Havia uma pequena lagoa onde eu passava muito tempo. Num dos extremos da lagoa havia um caminho com vários trilhos, mas dificilmente algum deles iria dar ao outro extremo da lagoa. Passei lá muito tempo e sentia-me mais seguro do que em casa. Numa ocasião houve uns miúdos que andavam atrás de mim para me bater. Tinham-me perseguido durante muito tempo, mas os bosques eram a minha casa e eu conhecia-os bem. A perseguição continuou até que eu os arrastei até ao fim da lagoa, e mais longe eles não iriam. Deram alguns passos mas recuaram rapidamente. Eu sabia que isso ia acontecer porque muita gente pensava que a lagoa estava enfeitiçada. Nunca vi nada senão talvez pelo canto do olho, mas sentia e percebia qualquer coisa. Anos depois, quando aprendi a visão remota, descobri que naquele tempo havia uma raça de pequenos seres que vivia lá desde há muito. Infelizmente partiram há muito tempo. E muitas outras coisas se passavam naqueles bosques. Recordo-me também do que se poderia chamar um amigo invisível com quem passava muito tempo na floresta, mas o portal dessas memórias está bem fechada. O que eu recordo são pequenos fragmentos, demasiado pequenos para darem corpo a uma história, como se olhando pelo buraco de uma fechadura eu visse que estava a ter uma longa conversa com alguém, mas o que se dizia e como se dizia era-me vedado. Pessoalmente penso que agora seria uma boa ocasião para relembrar, de maneira que eu pudesse escrever e acabasse com isso. Tenho a certeza de que muito mais coisas se passavam na floresta junto dessa pequena lagoa. Mesmo mais tarde, quando aprendi a visionar remotamente, a maior parte das coisas que se passavam estava bloqueada. Posso dizer que havia criaturas que viviam ali, talvez umas sessenta, mas eu não podia interagir com elas. Elas sabiam que eu estava ali a ver, mas não reconheciam a minha presença. Portanto, por ora vou falar-vos do que me lembro; acho que será suficiente para assimilar entretanto. Talvez eu não queira mesmo lembrar-me. Talvez seja esse o motivo por que certas memória estão bloqueadas. Ou talvez não.

- O que é a visão remota? – perguntou Ed.

- É uma maneira de ir a algum lado ver o que há, com a mente e sem levar o corpo. É algo como viajar para fora do corpo, mas mais comum e muito mais fácil de aprender. Podem ler sobre isso na internet. É muito comum. Bom, mas eu deixei o meu cão dentro do carro e provavelmente ele está a pensar onde é que eu estarei. Vou deixá-lo correr um bocado por aí e depois continuamos.

- Por que não o traz cá para dentro? – perguntou Ed.

- Bom, não quero incomodar-vos.

- Não, senhor! Desde que ele se sente aí sossegadinho ninguém dá por ele.

- Por mim tudo bem – disse eu, levantando-me.

Deixei Roody dar umas corridas à solta, dei-lhe água e trouxe-o para dentro. Ele procurou um recanto e instalou-se, feliz da vida, como de costume.

 

 

Juntos com amor

Juntos com amor estamos nós

Pois o todo é mais forte do que as partes

Juntos com um só

Com amor e confiança estamos nós

Contra os medos do

Passado, presente e futuro

O amor transporta-nos

Para além da louca tentação dos medos

O nosso amor é que nos dá força

O nosso amor dá-nos confiança

Os nossos Sonhos dão-nos

A vida que temos

Tanto tempo desejada

Na medida em que permitimos converter-nos num só indivíduo

Crescemos para além dos nossos Sonhos

Assim é

 

 

QUATRO

- Acho que ele está um pouco aborrecido por não ir passear, mas eu prometi-lhe que íamos amanhã – disse eu para o Ed e a Sally.

- Já o tem há muito tempo? – perguntou Ed.

- Ah, sim, desde o terror de quando era pequenito – disse eu. - Mas não vou agora entrar no assunto.

- Ele é tão sossegado! – disse Sally. – Se calhar você está a exagerar.

- Pois bem, se é isso que lhe parece. Mas nós os dois sabemos melhor! – respondi, enquanto Roody abanava a cauda como se para dizer basta um dia de trabalho! Gosto muito de ti, e para te mostrar como senti a tua falta vou comer a tua casa.

Depois de divagarmos um pouco, sugeri que a história era comprida, e se eles a queriam ouvir era preciso retomar o fio à meada. Concordaram, e eu continuei.

- O que vem a seguir é um pouco estranho e provavelmente vai suscitar uma série de perguntas – disse eu. – Mas não vou responder a pergunta nenhuma, portanto vocês têm de estar de acordo.

Sally e Ed acenaram com a cabeça afirmativamente, decerto um pouco curiosos do que estava para vir.

Foi no Verão em que eu fazia sete anos. Estava de regresso a casa das minhas expedições habituais. Decidi tomar por um atalho que atravessava uma zona que normalmente não era do meu agrado. Era uma vereda que corria em linha recta entre duas filas de casas, exceptuando duas curvas apertadas. De ambos os lados havia sebes muito altas e espessas. Só se via o caminho. O motivo por que não me agradava era que eu podia ser apanhado ali, pois só havia uma entrada e uma saída. E por causa das curvas apertadas também não podia prever no que é que me ia meter. Uma vez fiquei encurralado entre dois cães ruins que rosnavam e mostravam os dentes; aproximavam-se e pareciam dispostos a atacar. Não havia lugar para onde fugir; a sebe era demasiado espessa e não havia maneira de escapar aos cães. Tentei avançar na esperança de que um dos cães recuasse, mas ele aproximou-se mais e tornou-se mais ameaçador. Pareceu-me uma eternidade até que alguém viesse enxotá-los. A pessoa que veio em meu auxílio era um velho. Parecia ter vindo de nenhures e estava ao meu lado. Vi-o só uma meia dúzia de vezes na minha vida.

- O velho no bar de que você fala no livro? – perguntou Sally.

- Sim – respondi - , mas já lá voltamos daqui a pouco.

Assim que o velho apareceu, os cães foram-se embora com o rabo entre as pernas. Assim que os cães se foram eu saí dali sem uma palavra. O incidente assustou-me o bastante para não voltar a passar por ali. Não era nada costume os cães comportarem-se comigo daquela maneira. Além disso nunca tinha visto aqueles cães.

A única razão que me fez tornar a seguir aquele caminho é que encurtava o meu trajecto para casa. Estava cansado e com fome, por isso decidi arriscar mais uma vez. Quando me aproximei cautelosamente da vereda, parei para espreitar e escutar se havia alguém ou alguma coisa. A costa parecia limpa. Comecei a andar lenta e tranquilamente; depois acelerei um pouco ao passar a primeira curva; tudo o que se vê são sebes, não há saída nem entrada até se passar a curva seguinte. Ouvi um ruído forte e agudo que me feriu os ouvidos. Coloquei as mãos sobre os ouvidos e devo ter fechado os olhos por um momento, porque quando os abri estava noutro lugar.

Nessa altura da minha vida nunca tinha ouvido falar de extra-terrestres nem de naves espaciais. Nem sequer tinha visto nada na TV sobre a existência deles. Mas já tinha ouvido falar de elfos, tinha ouvido muita gente falar deles, embora não me lembre de ter visto algum. Havia pessoas que me perguntavam se eu tinha medo de elfos e feiticeiros.

Pois lá estava eu, ainda de mãos nos ouvidos, mas na minha frente estava o que eu pensava ser um elfo. Ali estava, voltado para ele e relanceando o olhar pelo sítio onde me encontrava. O elfo era mais ou menos da mesma altura que eu mas tinha um aspecto engraçado. Vestia roupa parecida com a das freiras ou a dos padres, mas não era branca nem preta. Verde escuro como as árvores. A melhor maneira de o descrever é que parecia um extra-terrestre cinzento. Se já viram imagens deles, imaginem-nos um pouco mais baixos e atarracados, pescoço mais curto e olhos mais pequenos, embora muito maiores em comparação com os meus e muito escuros, quase pretos mas não pretos. Não tinha cabelo no rosto nem na cabeça e tinha as maçãs do rosto salientes, ao contrário de certas imagens que tenho visto que retratam o suposto aspecto dos extra-terrestres. O espaço tinha um brilho metálico como o de uma moeda mas não fazia reflexos. Ele estendeu a mão para me cumprimentar. Tirei as mãos dos ouvidos mas não lhe toquei. Nem ele nem o espaço onde eu estava tinham nada que parecesse ameaçador. Ele disse-me que estava tudo bem e que queria ser meu amigo. Suponho que isso seria a palavra mágica. Não havia palavras; eu ouvi-o na minha cabeça, mas alto e com clareza. Aproximou-se de uma mesa não muito mais alta do que uma cadeira e perguntou-me se eu não me queria sentar, apontando com os seus dedos longos e ossudos. Ele não me preocupava, tão-pouco o seu aspecto, mas as mãos dele não me agradavam. Pareciam-se muito com o que poderíamos chamar as mãos de uma feiticeira. Ele deve ter-se apercebido e pareceu-me que deixou deslizar as mangas sobre as mãos, deixando apenas os dedos à mostra. Não objectei e fui sentar-me à mesa. Ao mover-me, os meus pés pareciam colados ao chão, o suficiente para não se poderem arrastar. Ele falou um pouco comigo e perguntou-me coisas como se eu ainda tinha medo daqueles cães. Em seguida começou a explicar onde eu estava e quem ele era. Embora aquilo não me fizesse muito sentido, ele persistia em explicar. Disse que era oriundo das estrelas que se vêem à noite e que estávamos numa nave que podia voar de estrela para estrela. Disse que viera para me ajudar e queria mudar qualquer coisa em mim. Depois perguntou se eu estava de acordo. Acho que disse que sim. Mas era como se ele não me perguntasse; parecia perguntar a qualquer coisa em mim e eu sentia que qualquer coisa em mim dizia que sim. Encarando aquilo à luz do que sei hoje, diria que ele pedia autorização a uma parte mais importante de mim, talvez a minha alma ou eu superior. Confiei nele; por alguma razão não sentia vir dele qualquer impressão negativa, e havia mesmo um sentimento de solicitude. Não era o que eu sentia em relação a outras pessoas. Por isso, em certo sentido era simpático. Abriu-se uma porta; mas não era uma porta, era como se uma parte da parede tivesse desaparecido. Outros dois idênticos a ele entraram, e vi pela abertura na parede que havia outros sentados em volta de um pedestal de luz, ou algo que fazia esse efeito. Os dois que entraram falaram comigo mas não me lembro do que disseram. Provavelmente um cumprimento amistoso para me fazerem sentir à vontade. Foram para o lado oposto da mesa a que eu estava sentado. Ele disse-me que eu precisava de ficar muito sossegado e não mexer a cabeça. Disse isso uma série de vezes e de cada vez eu acenava que sim com a cabeça, até que finalmente percebi que estava a mexê-la. Pareceu divertido com isso e eu sei que ele estava a chamar-me a atenção enquanto os outros faziam qualquer coisa por trás de mim. Perguntei se ia doer, porque se doesse eu ia-me embora dali. Ele disse que não. Puseram qualquer coisa na parte de trás do meu pescoço e senti aquilo descer pela coluna abaixo, enrolando-se sobre si mesmo. Não havia dor e ele continuava a falar comigo dizendo que estava tudo bem. Fez-me perguntas sobre as lutas à espada em que eu me entretinha muito, usando paus, claro. Mas o facto de ele manifestar interesse é que era importante para mim. Pensei que talvez tivesse ali um amigo. O que quer que fosse que descia pelo meu pescoço abaixo foi lá deixado, foi o que ele disse. Depois perguntou se me podiam dar uma coisa para que ele pudesse sempre encontrar-me, e eu concordei, a pensar que ia arranjar uma coisa muito fixe para brincar. Mostrou-me aquilo e deu uma explicação diferente. Era tão pequeno que mal se via. Disse que aquilo ia ser posto aqui e apontou a parte de trás do pescoço, sem perceber, até ser tarde demais, que tinha de novo à vista as suas mãos ossudas.

Puseram qualquer coisa ao meu lado, em cima da mesa, que eu lentamente tentei enfiar na algibeira. Mas houve qualquer coisa que a agarrou e lentamente puxou-a para trás. Ele disse então que iam pôr qualquer coisa em cima da minha cabeça e que ficasse muito quieto. Não vi o que era mas parecia ter algo gelatinoso em cima da cabeça e senti que se desfazia. E mais longe não vai a minha memória. Em pouco tempo tudo me pareceu novamente em ordem e ele pediu-me que voltasse ao sítio onde estivera primeiro. Disse que agora tinha de se ir embora e que não falasse daquilo a ninguém. Concordei e ouvi um ruído forte como o que ouvira antes de colocar as mãos nos ouvidos, e nesse momento lá estava eu na vereda, entre as sebes. Estava tudo bem, excepto que não conseguia lembrar-me de como ir para casa ou exactamente onde estava. A memória de todos os caminhos que eu havia percorrido desvanecera-se. Não tinha absolutamente nenhuma pista de como voltar para casa ou de onde seria a casa.

Foi então que reparei no velho. Aproximei-me dele pensando que devia saber onde eu vivia e como lá chegar. As pessoas de idade são assim, sabem sempre tudo. Parece que sabem sempre o que toda a gente faz. E assim era; ele disse-me para onde ir e em que direcção devia seguir quando chegasse a certo lugar. Naquela altura não percebia o que era esquerda e direita. Francamente ainda hoje isso não me faz muito sentido. Pelo que eu sei, metade da população concorda comigo. E a outra metade pensa que decorou isso muito bem. Seja como for, pus-me a caminho e ao fim de algumas voltas avistei o hotel. Quando lá cheguei a minha memória tinha voltado; tudo voltara ao normal, à minha rotina normal, encontrar alimento e dormir uma sesta. Não havia qualquer desconforto nem no pescoço nem nas costas, mas no pescoço sentia um pouco de comichão, como às vezes ainda hoje.

Olhei para Sally e Ed. Pareciam sem fala.

- Bom, querem que eu continue, ou quê? – perguntei.

- Ah, sim! – respondeu Ed. – É que você apanhou-me desprevenido… Tenho lido alguns livros sobre sequestros e não estava à espera disso.

- Estava precisamente a tentar imaginar o que estariam eles a fazer-lhe – disse Sally.

Limitei-me a encolher os ombros, sentado no meu banco.

- Há mais alguma coisa a dizer? A história toda é só isso? – perguntou Ed.

- Sim, há mais qualquer coisa, mas isso não é a história toda – disse eu.

- Você não quer mesmo responder a pergunta nenhuma sobre o assunto? – perguntou Sally.

- Qual é a dúvida? – perguntei.

- Alguma coisa mudou depois disso? Sentia alguma coisa diferente? – perguntou Sally.

- Posso responder a isso – tornei eu. – Mas não me importava de beber primeiro qualquer coisa

- O que é que lhe posso dar? – perguntou Ed. – Mais chocolate quente?

- Não, uma coisa fria. Não tem cerveja de barril?

- Claro que tenho. Aí vem ela! – respondeu Ed.

Uma vozinha

Uma vozinha

É como o vento, que guia as nossas velas pelas águas

A força dessa voz, a nossa aptidão para escutá-la

Vai guiar-nos através das vagas da tempestade que campeia dentro das nossas almas

Com ela, os nossos sonhos vão tornar-se a nossa realidade

Roberta Joehle

CINCO

Depois de Ed me ter dado a cerveja, acendi outro cigarro, observando calmamente os rolos de fumo de que gostava tanto, e prossegui com a pergunta de Sally.

Duas coisas mudaram depois de eles me agarrarem. Uma foi a minha força: aumentou drasticamente. Qualquer coisa como duas ou três vezes a força normal. Se bem que eu não veja qualquer razão ou propósito para me terem feito isso, tornou-se-me útil de várias maneiras, mas não foi grande benefício para o meu corpo. O que eu penso é que ou foi um efeito colateral ou uma experiência. Ao longo dos anos acabei por esquecer isso, mas se recuar até quando aconteceu pela primeira vez, tornou-se bastante cómodo.

Eu tinha encontrado um velho barco de madeira abandonado no leito de um rio seco. Para mim foi um sonho tornado realidade. Mas aquele barco que era mesmo meu, tinha rachas e afundar-se-ia rapidamente se estivesse na água. Mas não era esse o único problema. Dali até ao lago era bastante longe e eu precisaria de transpor um dique com quase cinco metros de altura para chegar à água. O barco também era muito pesado. Era igual aos que se alugam no lago. Normalmente são necessários dois mocetões fortes para os arrastar para o abrigo. Era uma questão de vontade, não importava se era possível ou não. Primeiro fui ter com os tipos que alugavam os barcos e perguntei-lhes como é que se reparava um barco daqueles. Disseram-me que usasse alcatrão e até me deram uma lata que tinha um pouco no fundo. Eu sei qual era a ideia deles. Pensaram que eu ia despejar o alcatrão por cima de mim e se iam divertir com isso. Suponho que foi o que aconteceu mas eles nunca viram; bem feito! O projecto de reparar o barco e lançá-lo ao lago demorou uns três dias. O último dia foi o mais longo. Depois de tapar todas as fendas e de cobrir o alcatrão com papel para não me sujar mais, continuei com o plano de empurrar o barco até ao dique. Isto não levou assim tanto tempo, mas passá-lo para o outro lado do dique é que foi obra. Arranjei cordas e paus para começar a elevá-lo, empurrando o barco para cima e retesando a corda cada vez mais, até que o passei para o outro lado. Garanto que isto normalmente teria sido impossível para alguém da minha idade e do meu peso. Mas acreditem se quiserem. Transposto o dique, era só uma questão de atravessar uma espécie de paliçada. Quando pus o barco na água já escurecia. Parecia meter um pouco de água, e assim, antes de fazer o lançamento do meu primeiro barco tinha de arranjar qualquer coisa para escoar a água. Nessa altura não sabia nadar e não queria correr o risco de encher o barco de água.

- Oh, não, outra vez não! – interrompeu Sally, rindo e abanando a cabeça.

- Você não está a entender. A vida é feita disto mesmo! – respondi, abanando a cabeça como se ela é que fosse maluca.

- Seja como for – disse eu – o meu plano era levar o barco de volta a um lugar onde ia muito pouca gente. Achei que era um bom sítio para escondê-lo. Mas bastava atravessar o lago! - já podia ver a interrogação no rosto de Sally, por isso respondi-lhe.

- É UM LAGO GRANDE! – disse eu, sorrindo. E prossegui. - Quando me fiz à água fazia-se muito tarde, calculei que seria meia-noite. Sei isso porque estava a uns 30 metros da margem, metendo uma quantidade razoável de água, quando vi chegar o meu meio irmão, arrastando a bicicleta até à margem. Que infantil! Gritava para mim e agitava os braços, berrando que nem um lunático que eu tinha de voltar para casa imediatamente. Que pateta! Eu tinha os meus próprios planos e continuei a remar mais depressa. Remando e escoando, remando e escoando – soa bem aos ouvidos. Não queria acreditar nos meus olhos: ele saltou para a água e começou a nadar na minha direcção. Larguei a lata de escoar e remei como nunca, gritando-lhe que se fosse embora. O tempo não estava propriamente quente e a água também não. Descobri por mim mesmo como estava fria quando ele chegou ao pé de mim e literalmente me puxou do barco para a água. Eu não sabia nadar e devo ter bebido uma boa quantidade de água até chegarmos à margem. A única coisa de que me lembro é de ele me obrigar a correr para casa a berrar comigo. Na manhã seguinte saí antes que alguém me deitasse a mão. Mas o meu barco tinha desaparecido. Nos dias seguintes arranjei algum dinheiro e aluguei um pequeno barco. Encontrei o meu barco a uns cinco metros de profundidade. Experimentei anzóis e cordas e quase fiz voltar-se o barco em que eu estava. Queria trazer o barco para a margem mas não me valeu de nada. Agora que já passei dos quarenta, apercebo-me de que sonhei em ter um barco à vela mas nunca fiz nada por isso. Há coisas que não nos largam. Mas no próximo Verão vamos mudar isso tudo. Agora é só uma questão de convencer a minha mulher de que eu sou um marinheiro nato e que navegar comigo é tão seguro quanto possível. Estava a pensar em fazer uma pausa na história só para a tornar um pouco mais fácil. Que é que você acha, Sally?

- É capaz de ser boa ideia – respondeu Sally, rindo.

Passámos uns minutos em conversa amena a propósito de eu não ter sido propriamente a criança mais fácil de educar. Discordei. Afinal de contas eu era fixe, se toda a gente ao menos me deixasse em paz.

 

Como é que eu sei o que é bom para mim?

Se eu me permitisse comer todo o gelado que me apetecesse,

Depois ia desejar comer ervilhas?

Se a nossa realidade é criada pelas nossas crenças e pensamentos,

Por que nos castigamos a nós mesmos criando efeitos colaterais abomináveis

De algo tão maravilhoso e agradável como os gelados?

E porquê e quem é que fez das ervilhas uma coisa boa para nós?

SEIS

Minha mãe morreu não muito depois daquele incidente do atalho para casa. Além da escola, o que me cerceava a liberdade não mudou muito até ao Verão em que fiz nove anos. Precisamente antes de terminar a escola, vi-me envolvido contra vontade numa luta na escola. Era a hora de almoço e todos os miúdos andavam a brincar no recreio em frente da escola. Eu estava nas traseiras, entretendo-me como de costume, quando alguns miúdos resolveram juntar-se para me darem uma tareia. Eram uns oito, fora o líder, e tinham-me encurralado a um canto. O auto-proclamado líder avançou e comecei a sentir um formigueiro e uma forte comichão na pequena marca na parte de trás do meu pescoço. Em poucos segundos tudo mudou: eu sabia exactamente como proceder. Afasta o líder e o resto cai por si. O líder saltou para a frente para me agarrar; desviei-me para um lado e agarrei-o eu. Dois segundos depois ele jazia no cimento fora de combate. Embora fosse maior do que eu, derrubei-o e bati-lhe com a cabeça no cimento. Os outros miúdos desataram a fugir.

Era a minha palavra contra a deles. Não muito depois disseram-me que ia viver para o Canadá com a minha tia e o meu tio. Não percebi o que era o Canadá nem onde é que ficava, mas não me preocupei porque pensei que podia sempre apanhar o comboio para casa. Na Europa pode-se sempre ir de comboio quase para todas as cidades. As pessoas diziam-me que no Canadá havia índios e “cow-boys” como no Oeste selvagem que eu tinha visto na TV. Não fiquei muito impressionado com isso mas imaginei que ia ser uma aventura.

O meu pai levou-me a um grande edifício de escritórios para preencher uns papeis e tirar o passaporte. Lembro-me que ele ficou danado comigo por eu não saber escrever o meu nome. O nome próprio eu sabia, mas o apelido não. Depois fomos comprar um casaco para mim. O que eles tinham escolhido não tinha algibeiras por dentro. Eu tinha um plano e precisava de algibeiras, muitas, muitas algibeiras. Depois de ter feito um grande rebuliço consegui as minhas algibeiras, um monte delas. Às vezes temos de lutar por aquilo que queremos e não nos contentarmos com menos.

A viagem de avião para o Canadá foi muito demorada e monótona, excepto por uma visita à carlinga. O responsável não me quis deixar pilotar o avião, por isso perguntei a mim mesmo porque é que ele me fez perder tempo a mostrar-me aquilo. A carlinga não é mais que um espaço acanhado cheio de botões em que não nos deixam carregar. Que graça tem?

Sally estava outra vez a passar a mão pela testa. Estava para lhe perguntar se ela tinha dor de cabeça mas resolvi continuar.

Fartei-me de beber limonada gasosa e fui à casa de banho uma porção de vezes. A casa de banho era a parte mais interessante do avião. Eu puxava o autoclismo e corria para a janela porque um homem tinha dito que eu conseguia ver a água a sair se fosse mesmo muito rápido. Não acreditei, mas de qualquer maneira valia a pena tentar. Há muito que eu tinha chegado à conclusão de que as pessoas nem sempre sabem a diferença entre aquilo que sabem e aquilo que não sabem. Muitas vezes as pessoas pensam que sabem uma coisa e não sabem. Muitas vezes as pessoas pensam que não sabem uma coisa e sabem, mas não se apercebem. Já tinha reparado que os pensamentos e as palavras das pessoas não coincidem, nem pouco mais ou menos. Claro que agora também encaixo nessa categoria. Mas naquela altura não: ou eu não dizia nada ou dizia o que estava a pensar. E assim me conservei até bem depois dos trinta, até perceber que o melhor para mim era calar-me. Bom, já estou a divagar.

Finalmente chegámos e chegou também a alfândega. O homem perguntou-me qualquer coisa numa língua que eu não compreendia. Ele ria-se mas enviou-me uma imagem mental de mim mesmo carregando uma grande arma, por isso comecei a mostrar-lhe as minhas. Primeiro uma arma, depois outra, e outra, e mais outra, depois um canivete, e outro e mais outro, e a minha arma de fogo e biliões de fulminantes. Ia-as tirando de uma algibeira, de outra, estão a ver o filme… Ele ficou admirado, e como ele mais umas 50 pessoas.

Acho que ele me disse para guardar aquilo tudo. É que não havia hipótese de eu ser escalpado sem uma luta. Índios e “cow-boys” era tudo o que eu sabia do Canadá e portanto era disso que eu estava à espera. Esperava ver carroças e desertos poeirentos. Bom, vocês podem imaginar o meu desapontamento quando tudo o que eu vi era uma cidade. Vancover BC, foi onde aterrei. Rosedale, perto de Chilliwack Bc, foi onde passei muitos anos.

- Ei, e onde é que você guardou todas aquelas armas? – perguntou Ed a rir.

- Nas algibeiras – respondi. – Tinha montes de algibeiras!

- Você não pensou que uma pistola de fulminantes ia salvá-lo, pois não? – perguntou Sally abanando a cabeça.

- Claro que pensei. Se estivesse para haver tiroteio, como é que eles iam saber que não era uma arma a sério? – disse eu. – Às vezes vale mais ladrar do que morder. Além disso não eram pistolas de fulminantes vulgares. Eu tinha-as modificado. Leva muito tempo a colar todos aqueles fulminantes, mas consegue-se uma explosão forte e uma data de fumo. Você é mesmo como a minha mulher, não compreende a teoria do “big bang”. Se não há explosão, não interessa. Experimentei contar à minha mulher a história de quando eu arranjei a minha arma de fogo, mas ela de todo não percebeu o meu ponto de vista.

- Ah, então você pensa que as mulheres não compreendem o seu ponto de vista! – respondeu Sally.

Ed mantinha um silêncio digno de nota, que era o que eu devia ter feito. Por vezes somos encostados à parede mas há uma hipótese de escapar; outras vezes o melhor é aceitar que vamos ser abatidos. Esta parecia ser uma dessas vezes.

- Bom… algumas compreendem, outras não – disse eu, embaraçado, na esperança de sair daquela. É assim: havia uma menina, filha do proprietário de um outro hotel, que costumava aproximar-se de mim e queria sempre brincar comigo, mas eu não gostava dela.

- Ah, então você podia ter tido amigos, só que não queria que fossem meninas… Agora compreendo! – interrompeu Sally.

- Não, não foi isso que eu disse. É que ela era uma coscuvilheira. Uma vez tirei de um buraco na escada uma pistola que esguichava fogo. Tinha este brinquedo no meu forte debaixo de uns degraus de cimento. O vão das escadas era tapado, excepto por uma pequena abertura por onde eu conseguia enfiar-me. Ela queria saber onde é que estava a minha pistola e eu disse que lhe mostrava se ela prometesse não contar a ninguém. Ela concordou. E então mostrei-lhe o meu forte e, a propósito, que mal é que tem uma pistola que esguicha fogo mas que não tem fogo? Acendi uma pequena vela para lhe mostrar como o brinquedo funcionava bem. Mal tinha acabado de acender a vela quando ela sai do forte disparada e vai direita ao meu pai. Claro que foi o fim da minha pistola de brinquedo. Nunca mais a vi e o forte foi encerrado. Aí tem. Uma promessa é uma promessa!

- Você podia ter-se magoado – disse Sally.

- Sim, eu podia ter-me perdido na floresta e morrido à fome, o avião podia ter-se despenhado, podia ter sido raptado, conservado como refém e cortado às postas, podia ter morrido de solidão ou de coração desfeito por promessas quebradas. Parecemos apostados em proteger toda a gente do que é possível, mas parece que falhamos no que está realmente a acontecer.

- Acho que tens razão, Sally – interrompeu Ed – mas há uma história na história que o Klaus está a contar.

- Acho que devia ir para casa. Isto está tudo a sair torto. Quanto é que eu devo? – perguntei, levantando-me.

- Sally saltou do banco e disse: - Não tive a intenção de o contrariar!

- Não, saiu tudo torto – respondi, compreendendo instantaneamente o que me aborrecera todos aqueles anos. Não sei como é que não me apercebi antes.

Tornei a sentar-me e reflecti naquilo por momentos. Ficámos todos em silêncio enquanto eu contemplava a minha decisão há muito esquecida.

- Quer que lhe vá buscar alguma coisa? – perguntou Sally. – Não me estou a sentir grande coisa.

- Não. Você disse o que estava a pensar e era precisamente isso o que havia a dizer. Talvez eu tome outro chocolate quente com creme, só para atenuar a dor – disse eu, sorrindo.

Levantei-me e dei uns passos para trás e para diante. Abanando a cabeça, disse que não podia acreditar que não me tivesse apercebido daquilo todo este tempo. Incrível!

- Eu percebi como é que você se teria chateado com as mulheres; você carregou isto consigo durante muito tempo e projectou-o para diante – acrescentou Ed enquanto eu passeava para trás e para diante.

- Não, não é isso – respondi, continuando a andar – aconteceu-me uma coisa idêntica com um rapaz uns anos mais tarde. Não me importo de ter ficado aborrecido por ter perdido o brinquedo e o meu forte; fiquei chateado com ela, não pelo que ela fez mas pelo motivo por que o fez. Também não foi ela: ela foi apenas a gota que fez transbordar a taça.

Sally voltou com o chocolate quente; adicionando-lhe um pedaço de creme, disse: - Ouvi o que você disse, mas há uma questão que ainda me baila no espírito. Espero que não se importe por eu perguntar.

Ed riu-se e disse: - Aí está a minha Sally, sempre a dizer o que lhe vem à cabeça, seja o que for.

- Não deixe de ser assim. Funciona, mesmo que às vezes não pareça – disse eu. – Qual é a pergunta?

- O que aconteceu àquele menino? Ele morreu?

- Não, o menino que começou aquela confusão não morreu. Só passou uma semana no hospital e umas semanas de cama em casa. Fui vê-lo para lhe pedir desculpa. Os pais dele saíram do quarto por momentos e foi nessa altura que ele me pediu desculpa a mim. Acho que nunca mais o vi depois disso.

- E o brinquedo que cuspia fogo? – perguntou Sally.

- Aprovação – disse eu. – Era disso que se tratava: obter amor pela aprovação. Ela não queria que eu me metesse em sarilhos; ela precisava de amor, e a única maneira que ela conhecia de o ter era conseguindo aprovação para as suas acções. Não se esqueça que eu ouvia os pensamentos das pessoas e por isso sabia o que se passava, e já tinha visto isso muitas vezes em toda a gente. Os pensamentos de quase toda a gente baseiam-se em obter aprovação, obtendo assim amor. Mesmo o esforço para se ser bem sucedido em qualquer coisa parece basear-se na aprovação. Pensem nisso. Todos nós queremos ser bem sucedidos naquilo que fazemos, mas em que medida isso se baseia na aprovação para se obter amor? Pensem mesmo nisso: quantas das nossas acções, decisões, palavras, coisas que fazemos, se baseiam de algum modo em obter aprovação, conseguindo-se assim um sentimento de amor? Se estamos realmente muito carenciados de amor e logramos essa aprovação, torna-se então difícil ver a diferença entre aquilo que queremos realmente fazer e aquilo que tem a ver com a aprovação. Reparem – disse eu, sentando-me – eu tinha decidido nunca fazer nada por uma questão de aprovação e fazer só o que estava certo para mim. Eu sei o que você esta a pensar, Sally. Uma criança não tem necessariamente experiência de vida para saber sempre exactamente o que é que lhe convém, mas isso é uma experiência de aprendizagem não mais perigosa do que fazer coisas por uma questão de aprovação e amor.

Isto causou-me muito sofrimento na vida, não saber por que sentia tanta falta de amor. Eu não tinha a aprovação das pessoas por aquilo que fazia, e assim também não tinha amor. O problema é que precisa de haver um equilíbrio e eu tendia para o extremo oposto. Não o lamento, só que não compreendi nada disso até hoje. Percebem o que quero dizer?

- Mais do que desejaria – respondeu Ed – mais do que desejaria…

- Concordo – respondeu Sally. – Tenho de pensar nisso um pouco mais.

- Eu também – disse eu. – Mas querem ouvir o resto?

- Sem dúvida! – respondeu Ed.

- Sem dúvida! – respondeu Sally.

- Muito bem, vamos então deixar isto para uma outra fase de contemplação.

Percepções

Um estudante que seguia com o seu mestre

Viu um galho verde no chão e perguntou ao mestre

O que é a cor?

O mestre pegou então no galho e disse

Verde é a cor que hás-de odiar e temer

E bateu-lhe repetidas vezes

Pousando o galho no chão, disse

É assim que a tua percepção daquilo que é, é colorida!

Só o Amor vê claramente para lá da cor, das palavras e das acções

Esta cor que penetra as minhas acções será como um espinho que só o Perdão do Amor é capaz de eliminar

Até então, será um peso de espada e escudo…

A cor é uma percepção

 

SETE

- Acho que vou dar um salto no tempo e falar de todos os encontros com extra-terrestres antes de prosseguir com a história – disse eu.

O encontro seguinte foi pouco depois de fazer 16 anos. Tinha carta de condução e regressava a casa depois de passar um tempo com os amigos. Exactamente; eu tinha alguns amigos, a maioria recentes, mas amigos apesar de tudo. Bom, mas a dez minutos de casa o carro começou a falhar e finalmente parou. Na altura o meu carro era um “carocha”. Saí do carro e ia abrir o “capot” quando ouvi um ruído muito agudo, tal como antes. Dois segundos depois lá estava eu outra vez dentro da mesma nave, na frente do mesmo elfo ou extra-terrestre. Apanhou-me de surpresa porque eu estava convencido que a primeira vez não passara de um sonho. Ele cumprimentou-me e perguntou como é que eu estava. Levou um tempo mas acabámos por conversar durante o que me pareceu muito tempo. Contei-lhe tudo o que se tinha passado e parte das minhas atribulações na escola por não ser capaz de ler e escrever. Francamente não me lembro de tudo o que foi dito mas uma grande parte só tinha a ver com a minha vida. Até lhe perguntei se podia ir com eles. Ele disse que ainda não podia, mas talvez um dia… Pedi-lhe para ver a nave mas ele disse que tinham pouco tempo e eu só podia estar a bordo daquela nave um tempo limitado, antes que perdesse o equilíbrio na minha realidade. Não percebi bem, mas agora acho que percebo. Ele disse que provavelmente podiam corrigir aquela parte do ler e escrever, se eu quisesse. Eu disse que estava bem. Ele disse-me que me sentasse na mesma mesa, como da outra vez, e entraram outros dois que se colocaram atrás de mim. Se bem que me tivessem pedido que ficasse muito sossegado, consegui ver uns aparelhos que saíam de uma abertura no tecto. Puseram-me qualquer coisa sobre a cabeça e senti o crânio ficar mole como geleia. Ele dizia-me certas coisas que na altura não me faziam muito sentido. Disse que aquilo ia ajudar mas não seria perfeito, pois só podiam fazer o bastante para não causar problemas com outras coisas que eles queriam manter como estavam, ou lá o que era. Disse também que iam abrir qualquer coisa, o que significava que eu ia compreender certas coisas sem as aprender, e que não me preocupasse. Eu continuava a confiar nele e concordei. Todavia, algo correu mal e apercebi-me da inquietação dele e dos dois que estavam por trás de mim. Houve uma fracção de segundo em que eu ia jurar que era outra pessoa, mas então tudo ficou escuro. A seguir lembro-me de estar sentado no carro, mas não conseguia lembrar-me de quem eu era. Era como se estivesse num planeta estranho em que tudo parecia esquisito. É difícil de explicar. Ainda me lembro de tudo, mas não como se fosse eu; era como se tivesse entrado na vida de outra pessoa. Talvez vocês relacionem isto com o que algumas pessoas chamam “incorporação”, mas não me parece. O resto da história poderá ser uma chave. É que nas nossas mentes e no nosso ADN está tudo o que fizemos e conhecemos nesta vida e noutras passadas e prováveis. Mas vocês querem entender isto. Acho que qualquer coisa se tinha aberto em demasia quando eles estavam a trabalhar em mim, e ou eles não foram capazes de a fechar por completo, ou tentaram mantê-la aberta numa certa medida. É por isso que agora sou capaz de escrever e falar em diversas línguas que não estão registadas na nossa história. Mas não em Inglês?

- Não tenho a certeza de entender o que você está a tentar dizer – interrompeu Ed.

- Bom, então já somos dois! – disse eu, rindo. – O que estou a tentar dizer é que aquilo que tentamos aprender já existe nas nossas mentes; quando pensamos que estamos a aprender qualquer coisa, isso apenas está a vir à tona lentamente, o que nos dá a impressão de que estamos a aprender essa coisa, quando na verdade já a temos. Acho que vocês vão compreender o que quero dizer: há uma teoria com a qual concordo e que diz que todo o conhecimento que aprendemos em todas as vidas fica armazenado no nosso ADN como um programa num computador. E lá estão as nossas mentes para aceder a essa informação, se soubermos como. Estão a perceber?

- Acho que sim – respondeu Ed.

- Muito bem – assenti.

Nas semanas seguintes as coisas equilibraram-se mas a minha escrita não melhorou nem um bocadinho. Em compensação, lia fluentemente; fiquei tão obcecado com o meu novo talento que faltei a tantas aulas que os professores já sabiam onde me haviam de encontrar. Estava na biblioteca a ler tudo. Geralmente estava atrás de uma pilha de livros, lendo dois ou três ao mesmo tempo. A maioria dos professores parecia contente por me deixar ali. Às vezes faziam perguntas sobre o que eu estava a ler e pareciam satisfeitos com as respostas, o suficiente para me deixarem lá ficar. E assim vamos aproveitando à medida da nossa vontade. Um dia não posso ler, e uns dias mais tarde já posso. Não passou muito tempo que eu não começasse a ler tudo o que me chegasse às mãos, como assuntos metafísicos, viagens fora do corpo, ciência, etc. Devo dizer-vos que não leio exactamente como vocês: vejo imagens. As palavras formam imagens. Posso estar a ler sobre os átomos, mas vejo imagens diferentes daquilo que está escrito ou desenhado. A ciência tem um longo caminho a percorrer. O que eu chamo ciência subterrânea possui um entendimento das coisas que os cientistas conhecidos nem sequer sonham como possível. Bom, mas é melhor parar com isto pois não é disto que trata a história. Vamos então continuar.

- Espere aí! E então isso que você chama ciência subterrânea? – perguntou Ed, inclinando-se para diante.

- Não vou entrar nisso porque nos afasta da base – respondi.

Ed, porém, não abdicava. Por isso passámos talvez a meia hora seguinte a discutir vários aspectos do que alguns chamam ciência subterrânea. Não vou entrar no assunto neste livro porque o meu objectivo é descobrir o poder que se esconde no amor e não a teoria da conspiração. Há muitos livros no mercado que vos darão muito que pensar. Se quiserem provas, tudo o que necessitam é: ou aprender a viajar fora do corpo ou, se isso vos assusta, aprender a visão remota. Eu diria divirtam-se, mas não é uma descoberta que vos vá agradar.

Aliás, até aprenderem como se envia amor não podem fazer nada nesse campo. Assim, a minha sugestão é que primeiro aprendam bem a enviar amor. Façam como entenderem.

Se este não é o vosso planeta,
Então percam-se!!!

 

OITO

- Bom, então só restam mais duas visitas. Estão prontos? – perguntei, antes de continuar.

A visita que tive a seguir, a penúltima, foi uns anos mais tarde. Por essa altura estava casado e tinha um filho. Tinha então e geria uma pequena indústria leiteira mesmo a sul de Spedden Alberta.

Era de noite, muito tarde, e tive de me levantar para ir ao curral ver como estava uma vaca prenha que estava pronta para dar à luz. Depois de examinar a vaca fiz um pequeno monte de feno que as outras vacas tinham empurrado para trás na tentativa de chegarem primeiro ao melhor bocado.

Por essa altura andava muito deprimido. Gostava das minhas vacas e da minha actividade, mas ao mesmo tempo sentia que a minha vida estava a ser desperdiçada. Tempo houve em que eu tinha diversos planos para passar a escrito teorias, ideias e coisas que tinha chegado a compreender. Porém, devido à minha incapacidade para escrever, tinha perdido a confiança. Além disso parecia que ninguém acreditava sequer nas coisas mais simples que eu havia descoberto. Um exemplo: se repararem em certas quintas, hão-de reparar que a maioria das vedações de madeira foram roídas. Isto não acontece por uma necessidade de roer, mas porque os animais têm falta de certos minerais. Levei algum tempo a descobrir quais eram, mas descobri. As pessoas da estação de pesquisa da vida animal não estavam interessadas, mesmo tendo visitado a minha quinta várias vezes para tentar perceber o que eu estava a fazer. As minhas vacas produziam grandes quantidades de leite e não perdiam peso. Isto por causa da ração alimentar. Depois de pesarem e medirem o que as minhas vacas comiam para ganharem peso em vez de o perderem, decidiram que era impossível elas comerem aquela quantidade e que era uma questão de sorte. Disseram que em todos os testes que tinham feito havia um limite para o que uma vaca podia consumir para um peso dado. Limitaram-se a esquadrinhar as coisas à procura de erros em vez de escutarem o que eu tentava explicar-lhes. Esforcei-me por explicar-lhes, mas entrou-lhes por um ouvido e saiu pelo outro. Demasiada formação na direcção errada; não podiam negar o que acontecia, simplesmente não o conseguiam explicar e não queriam a minha explicação. Ainda hoje me desconcerta como é que as pessoas se podem tornar tão tacanhas. Mandaram ter comigo outros criadores de gado com problemas de produção. Mas também eles não compreenderam. É tão simples! Apercebi-me que estava a afastar-me do assunto e continuei com a história.

Depois de empurrar o feno para a frente, sentei-me em cima de um fardo a matutar precisamente naquilo que estava a contar. Acho que de algum modo me sentia solitário e desejava ter a companhia de gente parecida comigo.

Ouvi aquele som muito agudo e sabia exactamente o que vinha aí. Em poucos momentos estava dentro da nave, desta vez já sentado em cima da mesa. Não ia ser uma visita tão agradável como eu esperava. Havia agora três por trás de mim, não só dois. O que estava na minha frente parecia muito agitado e com pressa; disse que já era bem tempo para mim e que precisávamos de efectuar mais algumas mudanças. Tentei perguntar o quê, onde, quando e porquê, mas a coisa já tinha começado. Perdi e recuperei a consciência várias vezes, e entretanto ouvi-os dizer que algo se passava com a nave, ou que estavam a ser atacados. Captava fragmentos de conversação mental que não faziam muito sentido. Porém, algo corria mal. A minha aterragem também não foi muito suave. Em vez de ser colocado onde estava, no sítio onde eles me tinham apanhado, achei-me em pleno ar, caindo em cima de um monte de estrume. Aquilo não teve nada de uma aterragem suave. Não vi nenhuma nave mas ouvi o que soava como um trovão num céu limpo. Depois de voltar a casa e me lavar, comi qualquer coisa. Em seguida voltei ao curral. Desta vez estava bastante chateado e decidi que da próxima vez seria diferente. Da próxima vez hei-de ter algumas respostas, disse com os meus botões. E outros dez anos passaram até à próxima vez. No entanto não me esqueci. Ao longo dos anos, tudo isto teve influência em mim. Também aprendi alguns truques próprios. Mais adiante voltamos ao assunto. Imaginei que era apenas uma questão de tempo até receber uma oportunidade de experimentar as minhas novas aptidões.

- Acho que preciso de um cigarro; tudo isto me traz muitas recordações – disse eu, acendendo um cigarro.

- Então os tipos do centro de pesquisas iam visitar a sua quinta porque as suas vacas estavam gordas? – perguntou Sally, rindo. – Ei, Ed, Klaus tem vacas gordas!

- Muito engraçado, eram vacas gordas!

O facto é que produziam grandes quantidades de leite. As vacas podem produzir 45 litros ou mais por dia. Isso fá-las perder muito peso. O problema é que elas não podem comer alimento suficiente para lhes fornecer o que elas necessitam, e por isso começam a perder peso. A certa altura começam a baixar a produção de leite porque ficam desgastadas. Por isso os investigadores procuram maneiras de mudar a proteína de modo que seja mais rapidamente absorvida. Isso e outras coisas ajudam, mas não resolvem o problema. E não se pode exactamente fechar a torneira do leite. Ora uma noite em que tínhamos visitas, o jantar era carne assada com puré de batata, e toda a gente comeu até se fartar. Eu fiquei tão cheio que não conseguia comer nem mais um bocadinho de puré. Mas a seguir havia sobremesa, que eles também tinham trazido, e o facto é que, mesmo cheio ao ponto de não ser capaz de engolir mais uma única garfada de puré, ainda fui capaz de comer duas sobremesas e tomar café. Foi então que me veio a ideia: três a cinco pratos. Mesmo quando estamos cheios de uma coisa, podemos sempre arranjar espaço para algo mais. Era esse o truque. Eu dava às minhas vacas uma refeição matinal de quatro pratos, uma refeição de três pratos ao meio-dia e uma refeição de cinco pratos à noite. O resultado era que elas eram capazes de comer 30% mais alimento do que estava estatisticamente provado ser o máximo em função do peso do animal. Simples… as minhas vacas ganhavam peso e produziam grandes quantidades de leite durante grandes períodos de tempo. O que eles não conseguiam compreender ou não queriam reconhecer é que uma vaca é exactamente como nós quando se trata de comida. O grande obstáculo é que eles diziam que o que as minhas vacas comiam era impossível, e daí não passavam. Aliás, o roer das vedações continuava como dantes. Muito tempo levei a descobrir quais os minerais que faltavam, mas no fim disseram-me que as vacas não precisavam desses minerais. - Como quiserem! – foi o que lhes disse.

Bom, mas parece que me desviei outra vez do caminho. O problema é que depois de eles me apanharem as coisas foram de mal a pior. Nos dois anos seguintes ouvia os pensamentos das pessoas, mas não os pensamentos conscientes: os pensamentos inconscientes. Isto quase deu comigo em doido. Acabei por abandonar o casamento e a quinta.

- Então e que aconteceu à quinta? – perguntou Ed.

- Deixei-a à minha mulher – respondi.

- Não estou a perceber bem o que aconteceu – disse Sally.

- Tudo me caiu em cima e é tudo o que há a dizer. Além disso, por essa altura tinha eu decidido que dera em maluco. Para a loucura não há remédio.

- Isso era o que você pensava, que estava maluco – observou Sally.

- Bem, tomem o que eu expliquei até agora e acrescentem mais uma centena de pequenas coisas que não vale a pena referir individualmente, e aí têm a loucura – respondi.

Um toque no braço não é nada, mas uma centena de toques representam mais do que um murro valente. Foi assim que a coisa se passou e foi desse modo que eu comecei a encará-la. E há mais e mais e mais. De qualquer maneira, falar disso é uma coisa e vivê-lo dia após dia é coisa diferente. Vir para o Canadá e viver com os meus tios foi como ir para o inferno. Não quero entrar em pormenores, mas o que se passou lá e a minha incapacidade para escrever acabaram por liquidar toda a minha auto-estima. Crianças e adultos podem ser muito resilientes às coisas que acontecem, mas se a nossa auto-estima fica esmagada, é o fim. Desde que possamos construir auto-estima, tudo se torna possível. Obviamente eu escrevi um livro mesmo não sendo capaz de escrever, mas primeiro tive de reconstruir a minha auto-estima. Isto levou muito tempo, muito.

- Compreendo – disse Sally.

- Eles voltaram? - quis saber Ed.

- Sim, até hoje voltaram outra vez – respondi. – Foi no fim do Outono de 1998, mais de 10 anos depois, mas ao mesmo tempo eu estava a conseguir bons resultados da minha experiência de lotaria e começava a aprender a enviar amor. Vocês leram o meu primeiro livro e portanto sabem de que altura é que estou a falar.

- Foi quando o Sneaky entrou em cena a primeira vez – respondeu Sally.

- Sim, acho que sei o que quer dizer – interrompeu Ed. – Só que essa história era um pouco mais alegre do que esta. Não estou a queixar-me – disse Ed, fazendo um gesto com a mão. – Só que esperava algo diferente.

- Eu também – acrescentou Sally.

Encolhi os ombros e disse que não fora eu a traçar o itinerário mas que tinha escorregado por ele abaixo. – Vocês não são obrigados a escutar. Era visível que eles estavam a passar um mau bocado engolindo esta história. Não os censuro. Eles queriam acreditar. É uma coisa boa que o ónus da prova recaia no descrente e não no narrador da história.

- Não há prova nenhuma, Sally, Ed – disse eu. – Mesmo que vocês tivessem vivido isto, mesmo assim isso não era prova para vocês. As coisas são mesmo assim.

- Se eu lá tivesse estado, isso seria uma prova para mim – disse Sally.

- Não, não seria – retorqui. – Havia de parecer como um sonho, qualquer coisa que durou um momento fugidio e que depois não se sabe se aconteceu ou não. Além disso, há uma coisa de que vocês não têm consciência: naquelas naves o tempo é diferente. É muito confuso para a mente consciente e a mente tenta apagá-lo como se fosse um sonho.

- Que quer dizer com tempo diferente? – perguntou Ed.

- Acho que seria melhor acabar esta parte da história e depois podemos então falar do tempo; assim não será tão confuso.

Todos concordámos e eu continuei.

Eram umas 8 ou 9 horas da noite quando subitamente me senti muito cansado. Achando que não conseguia ter os olhos abertos nem mais um minuto, fui para o meu quarto e deitei-me na cama. Tenho a certeza de que adormeci mal me deitei. Onde acordei é que já é outra história. Com todas as longas e profundas meditações que eu fazia por esse tempo, estava treinado para despertar ao primeiro sinal de perigo. Por outras palavras, tinha dado instruções ao meu subconsciente para me despertar completamente a qualquer sinal de perturbação. Isto veio mesmo a jeito porque acordei noutra nave. Acordei muito rapidamente com a adrenalina já em circulação. Em presença do que via fiz uma constatação imediata: não estava num sítio amigável nem com ninguém amigável. Sentando-me de repente, devo ter assustado os três extra-terrestres. Tudo levava a crer que se preparavam para fazer qualquer coisa à minha cabeça. Um deles disse-me muito energicamente que me deitasse, para que eles pudessem prosseguir. Não lhe dei grandes hipóteses pois o agarrei pelo pescoço, um pescoço muito pequeno; a minha mão dava-lhe a volta completa. Com os seus pequenos dedos ele tentou livrar-se do aperto, mas após muitos anos de criação de vacas ganhei muita força nas mãos. Um dos outros deu a volta à mesa para ajudar mas eu agarrei-o da mesma maneira. A luta durou só uns segundos até que eu senti o primeiro pescoço partir. Ele caiu como um boneco. Dei um soco na cabeça do outro e larguei-lhe o pescoço ao mesmo tempo. Ele foi-se abaixo e bateu com a cabeça na parede por trás. Quando lhe bati na cabeça senti-lhe o crâneo esmagar-se sob o meu punho. O terceiro dirigiu-se para a porta; melhor dizendo, para uma abertura na parede. Saltei da mesa para o agarrar mas falhei e tropecei. Foi o que lhe valeu. Ergui-me e fui atrás dele mas senti-me pesado e detido pelo meu peso. Havia outros dois que vinham pelo corredor. Quando o terceiro cruzou com eles senti qualquer coisa bater-me. Por instantes o meu corpo imobilizou-se e caí. Ao levantar-me vi que um dos outros dois tinha na mão um aparelho qualquer. Resolvi que seria ele o próximo, mas antes de chegar ao pé dele fui novamente atingido e fiquei rígido, o suficiente para ser empurrado para uma divisão cuja porta se fechou atrás de mim. Sei que tudo se passou em poucos minutos porque não fiquei totalmente inconsciente, apenas bastante atordoado. Estava muita gente na sala, talvez uns 10 ou 15. Todos eles pareciam alheios àquilo, uns deitados no chão, outros deitados mas apoiando-se na parede. Havia um de pé. Levantei-me e precipitei-me para ele. Parecia não prestar atenção ao que se passava. Eu estava como louco e teria matado aqueles sacaninhas todos se me tivessem dado oportunidade. Comecei a dar umas sapatadas ao que estava de pé e a gritar-lhe que acordasse e lutasse, mas não houve meio de o convencer. Corri para outros, batendo-lhes com a mão e dando-lhes pontapés para ver se eles ganhavam consciência e lutavam, mas eles estavam fora daquilo. Alguns estavam vestidos e outros parecia que tinham sido tirados da cama. Fiz tudo o que pude para os acordar, mas não serviu de nada. Comecei outra vez a abanar o que estava de pé, pensando que fosse ele a melhor opção, quando qualquer coisa aconteceu algures parecido com uma explosão. Foi forte e sacudiu a nave toda. Dois segundos depois houve outra. Corri para a porta e tentei abri-la, inquieto com os símbolos ao lado da porta. No instante seguinte já estava noutra divisão da nave; fui transportado, não sei como, para junto dos outros que me tinham apanhado antes. Desta vez estava sentado na sala principal de controlo, com um que não faço ideia como se chamará. Havia outros sentados aos painéis de controlo. A parte da frente da nave era invisível; olhando para fora era como se fosse espaço aberto. Isto fez-me tonturas pois me parecia que podia ter caído lá para fora. Agarrei-me a uma espécie de painel e fiquei atento. Parecia que a nave donde eu tinha vindo tinha uma grande brecha. Tudo isto se passava com grande rapidez. Tive a impressão de que eles tentavam tirar outros da nave danificada mas estavam a ter dificuldades. Tudo se consumou numa questão de segundos. Aproximava-se uma outra nave que já tinha disparado dois tiros contra a nave danificada. A nave explodiu e nada restou…

Parecia que virávamos e nos afastávamos da outra nave. Toda a parede donde se observava o exterior se tornou sólida. Eu estava tão furioso que parecia deitar fogo. Expliquei com toda a clareza que queria ir para casa e ser deixado exactamente onde me haviam encontrado, e que não queria tornar a vê-los outra vez. Bom, e talvez tenha dito mais algumas coisas antes de me sentar no chão encostado a uma parede. A única coisa que me foi dita é que eles pensavam que eu estava morto nesta linha de tempo e iam tentar encontrar-me noutra linha de tempo. Para ser franco, eu não ouvia coisa nenhuma, tal era a minha fúria. A minha cólera resultava principalmente do meu sentimento de impotência, porque não tinha armas nem nave, nada com que lutar, e nem sequer sabia quem eram os bons e quem eram os maus nem por que carga de água é que me via envolvido naquilo. Tudo se tornaria claro ao fim de dois anos.

Uns dias mais tarde falei nisto ao Sneaky mas ele não avançou grande coisa. Tudo o que ele disse foi que existem duas forças no universo. Uma faz-nos parar, a outra impele-nos para diante. O truque é utilizar ambas para nos conduzirem às nossas metas e para além delas.

Sinceramente não tenho a certeza do que tudo aquilo significou nem qual era o objectivo. A única coisa que resultou daquilo é que certos centros da minha mente ficaram abertos e talvez não devessem ficar. A minha opinião é que eu podia ter sido mais bem sucedido nisto sem toda aquela interferência.

- Então, o que pensam vocês? - perguntei à Sally e ao Ed.

- Bom, isso já é outra questão – respondeu Ed, abanando a cabeça.

- E que aconteceu às pessoas que estavam naquela nave que explodiu? – perguntou Sally.

- Morreram, suponho – respondi. – Não houve indicação nenhuma de que elas tivessem sido levadas para a outra nave.

- Você perguntou? – quis saber Sally.

- Não, não perguntei coisa nenhuma. Mas posso dizer que as coisas não correram como tinha sido planeado. Ou talvez tivessem corrido mas eles queriam que parecesse que tinham falhado.

- Pergunto a mim mesma… – disse Sally. – Isto é tudo muito confuso. Você vai escrever tudo isto no seu próximo livro?

- Na verdade estava a pensar escrever tudo tal como vos estou a contar agora – respondi.

- Quer dizer que vamos entrar no livro tal como Nina e Danny? – perguntou Sally.

- É essa a ideia. Assim tudo faz sentido até este momento.

- Sim, acho que se escrever isso tal como nos contou até agora, é acessível – respondeu Ed. – Mas parece-me que vai levantar muitas questões. Eu tenho uma porção delas neste momento, mas não quis interromper enquanto estava a contar a história. Por exemplo, porque é que eles o perseguem dessa maneira?

- Bom, eu recebi alguma informação de que não me apercebi até mais tarde. Tudo está ligado com o enviar amor. Depois eu conto-lhe o que é, e quando eu contar você vai dizer que já sabia, só que parecia que se tinha esquecido.

O que é que você acha que acontecia se uma população inteira de biliões de pessoas usasse a força da sua fonte de energia? Pense só nas implicações. Mas há mais qualquer coisa para além disto.

- Como é que se sente em relação ao que você fez àqueles extra-terrestres? Não acha que poderia haver uma retaliação? – perguntou Sally.

- Penso que não. Acho que eles estavam muito ocupados e provavelmente têm as mãos cheias, e acho que eles pensam que estou morto. Em relação ao que sinto a esse respeito, não sei, penso que uma mistura de sentimentos.

- Pela leitura do seu último livro não imaginei que você tivesse feito aquilo. Não quero aborrecê-lo mas, pelo que nos contou, parece que você esteve quase a fazer mais do que a proteger-se. É quase como vingança. Há alguma coisa que não nos tivesse contado? – perguntou Sally.

Ed fixava-me na expectativa.

Permaneci em silêncio, tentando pensar no que havia de dizer.

- Você vai pôr tudo a descoberto também neste livro? – perguntou Ed com um sorriso de esguelha.

Parei de falar, pois havia pessoas a entrar no restaurante. Andavam para cá e para lá sem serem capazes de decidir se ficavam ou não. Finalmente sentaram-se, mas pareciam nervosas. Sally deu-lhes o menu e depois foi ver o que desejavam.

- Tudo é um caminho que leva a outros caminhos – respondi. – Acho melhor acabar o resto da história como um todo e depois talvez analisar outras possibilidades e ver como tudo está ligado. A ligação é essa coisa de enviar amor. Esta é uma das razões por que eu quero escrever este livro: tentar explicar de algum modo que enviar amor pode ter um tal impacto nas pessoas e no planeta como um todo que julgo que alguns vão tentar e tentam deter o processo, outros tentam provocá-lo e outros querem que ele tenha lugar mas de uma forma controlada.

- Que quer você dizer com isso de alguns quererem que ele tenha lugar mas de uma forma controlada? – perguntou Ed.

- Querem controlá-lo para servir os seus próprios interesses – respondi, - e uma vez que cada vez mais pessoas começam a enviar amor, o planeta vai começar a ficar cheio de amor e começa também a irradiar amor para o exterior, e isso vai ter ramificações que vão além deste sistema solar, afectando tudo e todos tal como acontece com o Sol. O Sol irradia luz e nós irradiaremos amor.

A não ser que vibremos de amor, nunca mais seremos capazes de voltar aqui, e então seríamos capazes de aterrar no Sol. Isto significa também que uma grande parte da civilização teria de mudar ou de mudar de sítio. Digo isto grosso modo e em termos físicos, mas no fundo é isso.

- Perdi alguma coisa? – perguntou Sally. – Eles só queriam café.

- Ah, sim – respondeu Ed.

- Então o que é que eu perdi? – insistiu Sally.

- Enquanto você lhe conta, Ed, eu vou à casa de banho – respondi, erguendo-me.

Quando voltei da casa de banho já as pessoas se levantavam para sair. Sally voltou e sentou-se.

- O que é que você lá esteve a fazer tanto tempo? – perguntou Sally a rir.

- Estive lá muito tempo? A mim não me pareceu - respondi, sorrindo.

- O tempo para o Klaus deve ser diferente – disse Ed, rindo.

- Portanto você pensa que isto de enviar amor tem tanta força que vai afectar pessoas ou extra-terrestres em outros planetas – disse Sally.

- É o que me parece – respondi. – Acho que depende do que as pessoas fizerem com isso. A coisa é assim: recebo uma montanha de emails do que alguns chamam meditações mundiais, em que um grupo de pessoas se associa em todo o mundo e envia um sentimento e pensamentos de paz como uma manta a cobrir o mundo. Muitas pessoas falam também do poder do amor, mas o que realmente lhes falta é enviar amor e também focalizar esse amor em determinados eventos ou pessoas. É assim: se houver um incêndio e tivermos uma certa quantidade de água, se a espalharmos sobre todo o local do incêndio ela vai evaporar-se; mas se a concentrarmos em determinados pontos para conter o fogo, então temos o fogo controlado e apagamo-lo.

Vamos imaginar que uma vez por semana temos mil pessoas a meditar e a enviar pensamentos de paz para todo o mundo; não se consegue grande resultado; mas se treinarmos essas mesmas pessoas a enviar amor e a concentrá-lo num alvo, veremos resultados muito rapidamente.

- Se houver uma guerra e quisermos pará-la, não vamos enviar amor para todo o país que está em guerra? – perguntou Ed.

- Não. Vamos é concentrar-nos nos líderes de ambos os lados, porque eles têm poder para acabar a guerra. Enchendo-os de amor, eles vão tomar decisões diferentes. E concentrando-nos neles estamos a criar aquilo que pretendemos. Assim, quando se começa a apagar o fogo começamos a trabalhar para o povo em geral.

- Então e o livre arbítrio? – perguntou Ed. - Então eles não têm o direito de proceder como querem?

- Ora, ora, isso é como se o Sol dissesse: ah, bom, talvez eu não deva brilhar hoje porque há pessoas que não vão gostar, preferem escuridão, portanto é melhor eu não brilhar. Existe a luz do Sol, existe o ar e a água e vai haver amor a irradiar daqui. É o destino deste planeta. Enviar amor não impede ninguém de fazer jogos de guerra. Eu próprio aprecio esses jogos e penso que as pessoas devem ser livres de fazer o que lhes traz alegria. Enviar amor não transforma as pessoas todas em patetinhas do amor. Se isso me privasse do meu carácter, desistia o mais depressa que pudesse. Se uma pessoa faz coisas por ódio e por medo, enviar amor vai ter o efeito de resolver isso eliminando o sofrimento interior e libertando esses medos aprisionados. Se uma pessoa ou um grupo de pessoas está a fazer qualquer coisa de que realmente gosta, devemos apoiá-las nesse esforço, seja lá para o que for, mesmo que isso possa matá-las. É a opção delas e a sua liberdade. Enviando-lhes amor, estamos, em certo sentido, a dar-lhes força, saúde, resistência, energia, ajudando-as a conseguir o que realmente lhes traz alegria, mesmo que isso não seja do nosso agrado. Há pessoas que pensam que enviar amor a alguém que não o solicitou é uma invasão da privacidade. Se é nisso que querem acreditar, para mim tudo bem. Eu vou fazer o que me parece justo, e uma vez que sou eu a utilizar a minha fonte de energia, sou eu a decidir o meu destino e como a minha vida vai ser experimentada por mim. Se vocês enviarem amor e por alguma razão isso não estiver correcto, vão sabê-lo de imediato. Isso aconteceu-me uma única vez. Vocês podem pôr tudo em causa, se quiserem. Têm livre arbítrio para fazer a guerra e eu tenho livre arbítrio para acabar com ela.

- Você disse qualquer coisa sobre o Tibet no princípio do seu último livro – disse Sally.

- Um exemplo perfeito – respondi.

- Ah, sim. Você dizia que se a população do Tibet tivesse tido conhecimento de como enviar amor e o tivesse feito, podia ter sustido a invasão – respondeu Ed.

- Exactamente – respondi. – Já pensaram bem nessa invasão e no que estava em causa?

Pensem bem no que lá há. Acham que há lá recursos suficientes para pagar ao menos a manutenção de um exército? A questão é simples. Antes da invasão havia milhares de monges cantando, orando, desfiando as suas rodas de orações, enquanto o líder fugia. Se quiserem governar pessoas, então estejam preparados para resistir com elas e morrer com elas. Isso eu respeito e as pessoas em todo o mundo também teriam respeitado e até se teriam solidarizado e juntado a elas. Mas eu vou ficar por aqui antes que…

Vive de acordo com aquilo que apregoas e mantém-no até ao fim.

- Detesto dizer isto, mas a sua vida corresponde ao que você diz? – perguntou Sally. – Você é rico, não precisa de trabalhar para ganhar dinheiro, etc.

- Espere aí! O que é que a faz pensar que eu sou rico? – perguntei, chocado com a pergunta dela.

- Bom, você ganhou muito dinheiro na lotaria e portanto não precisa de se preocupar em ganhar a vida. Eu teria montes de tempo para enviar amor se não tivesse de trabalhar para ganhar a vida.

- Ah, já compreendo o que quer dizer. Não sou rico. Deixei de jogar na lotaria e dediquei-me ao trabalho de enviar amor, não vivendo da lotaria nem da venda do livro. Decidi viver aquilo em que creio e tenho distribuído o livro pagando para isso. A divulgação do livro custa-me milhares de dólares, e nem um veio da lotaria. Trabalhei para isso e enviei amor a tal ponto que aumentei o meu rendimento consideravelmente, de maneira que só preciso de trabalhar uma pequena parte do tempo. Fiz tudo isto enviando amor, fazendo exactamente o que disse no meu livro. Tudo o que tenho é o resultado de enviar amor. Lá mais para diante algum rendimento virá dos livros, mas isso será só nessa altura e será ainda o resultado de enviar amor.

- Oh, não tinha compreendido… - disse Sally, envergonhada.

Tudo o que fiz foi enviar amor e depois entrar pelas portas que se abriam. E as coisas iam melhorando sucessivamente e os antigos problemas pareciam desaparecer lentamente, pouco a pouco. Posso falar-lhe um pouco daquela carta, mas gostava de terminar esta história.

- De acordo. Por mim, tudo bem – respondeu Sally.

 

Privacidade

Hoje li qualquer coisa sobre privacidade que me fez rir

Porque não existe tal coisa, não é mais que uma ilusão

Metemos o dedo no nariz quando julgamos que ninguém está a ver, mas não é o caso

A vida pode ser dura e pode ser divertida, mas no entanto é preciosa

Especialmente a vida neste planeta e neste tempo

É que nem toda a gente consegue vir para cá e há uma bicha tremenda

De almas que querem experimentar a vida na Terra

Por outras palavras, estar aqui, especialmente neste tempo, é uma honra

O que me faz voltar à privacidade porque por cada pessoa aqui

Há pelo menos meia dúzia a observar-nos o tempo todo

A aprender e a evoluir com as nossas experiências

Algumas não podem vir para cá e outras preferem aprender pela observação

O que implicitamente atira a privacidade pela janela fora

E da próxima vez que você meter o dedo no nariz ou fizer qualquer coisa que pensa que ninguém vai saber

Pense duas vezes

 

NOVE

Fizemos um intervalo breve porque o telefone tinha tocado e Sally esteve uns minutos a atender. Depois de ela deixar o telefone, continuei.

Bom, vamos então recuar um pouco até ao tempo em que eu tinha deixado a quinta e estava a viver em Edmonton. Em meados de 1980 estava eu a trabalhar num armazém de madeiras. Duas coisas importantes aconteceram durante esse tempo que eu tive de deixar de fora do meu último livro. Ainda que ambas as coisas ocorressem ao mesmo tempo e estivessem relacionadas, a única maneira que tenho de as relatar é separando-as um pouco. Depois de as contar, podem imaginar a minha situação passando por elas e mantendo uma ocupação regular. Francamente admira-me estar ainda suficientemente são para escrever sobre isso. Pois bem, talvez ainda venha a tempo para ser discutido, disse eu, rindo. Mas interiormente não tinha nenhuma vontade de rir. Deixem-me lembrar-vos que aquilo em que vocês acreditam e aquilo em que não acreditam é convosco. Um velho feiticeiro ensinou-me a deixar o ónus da prova para o descrente.

- Por mim tudo bem – responderam Sally e Ed.

Se não leram o primeiro livro, vou reescrever parte do que deu início a isto tudo. A seguir continuo com a história com Sally e Ed, já que eles tinham lido o primeiro livro não muito antes de eu chegar ao restaurante da estação de serviço. Aliás Sally e Ed já lá não estão, mas a estação de serviço sim. Fica a cerca de três quartos do caminho de Calgary a Heart Creek, e agora há lá uma pista para carrinhos de criança. Para o caso de quererem saber, é no lado sul da auto-estrada.

Tinha passado uns meses a ler uns quantos livros e a fazer uma tentativa séria para ser feliz. Fiz um grande esforço nesse sentido mas os resultados foram zero. Achei que as coisas pioravam em vez de melhorar, e a gota que fez transbordar a taça foi numa noite em que estava a ler um novo livro que tinha comprado nesse mesmo dia. Nesse livro, a pessoa que o escreveu relatava o encontro com um grande mestre que lhe ensinara várias coisas fascinantes. O que realmente me chateou foi que essa pessoa teve um mestre que foi ter com ela por artes mágicas e lhe ensinou tudo o que ela queria saber, ao passo que eu tenho de me debater sozinho com os meus problemas. A outra parte que me chateou foi que ele falava de certas coisas interessantes que aprendera mas não dava instruções sobre como fazê-las. De que serve falar dessas coisas sem dar as respectivas instruções? Um desperdício de papel e do meu tempo. A minha atitude nessa altura tinha-se radicalizado um pouco. Lembro-me de tudo com muita clareza. Achei que o universo se tinha esquecido de mim. Andava tão frustrado e perturbado que lancei o livro contra a parede; mentalmente gritei que, se não recebesse uma ajuda imediatamente, no dia seguinte levava o meu carro até às montanhas e atirava-me pela ribanceira abaixo. Sentia a cólera correr-me pelas veias. Com o decorrer do tempo, provavelmente não o teria feito, mas naquele momento a decisão estava tomada. Pensava eu que, enquanto aqui estivesse, o universo podia ignorar-me, mas quando já não estivesse aqui mas sim na frente dele, seria bem mais difícil ignorar-me!

Não sei exactamente quanto tempo passou, mas diria que a coisa começou não mais de cinco minutos depois de ter gritado aquelas palavras interiormente. Os meus sentidos interiores pareceram dar um salto para a vida e senti algo muito grande. Era enorme e parecia esforçar-se por caber no meu apartamento, mas era demasiado grande e acabou por ocupar todo o espaço do bloco de apartamentos, e mesmo assim não era suficiente. Na verdade eu não via nem ouvia coisa nenhuma, mas sentia-o com todo o meu ser. É a única maneira de o descrever.

Não sei exactamente quanto tempo passou, mas diria que a coisa começou não mais de cinco minutos depois de ter gritado aquelas palavras interiormente. Os meus sentidos interiores pareciam saltar para a vida e senti qualquer coisa muito grande. Era enorme e parecia esforçar-se por encolher para conseguir entrar no meu apartamento. Mas era grande demais e acabou por ocupar o espaço todo do bloco de apartamentos, e mesmo assim não era suficiente. Na verdade eu não via nem ouvia nada, mas sentia-o com todo o meu ser. Não encontro outra maneira de dizer. Não posso dizer-vos como estava assustado. Acho que nunca senti tanto medo. Quase fiz chichi na cama.

Tinha um apartamento pequeno mas aberto, e da minha cama podia ver a entrada, parte da cozinha e uma grande porção da sala de estar. Tinha as luzes todas acesas porque não gosto da escuridão. Assim que escurece, penso sempre que há qualquer coisa grande atrás de mim a observar-me. Tanto quanto consigo recordar-me, a escuridão sempre me assustou. Por isso tenho sempre as luzes acesas, e nem sequer gosto dos cantos escuros. Quem sabe o que se pode ocultar aí? Ao cabo de uns segundos as luzes começaram a apagar e a acender; não eram as luzes todas ao mesmo tempo, mas uma de cada vez, das que estavam suspensas. Era quase musical. Eu tremia literalmente de medo. Sentia e percebia esta presença a formar-se, e de repente ouvi uma voz na minha cabeça. Dizia, alto e bom som: “Devias saber melhor…!”

E foi assim. As luzes deixaram de apagar e acender e aquela coisa, fosse lá o que fosse, saiu. Eu estava tão assustado que, mesmo cheio de vontade de ir à casa de banho, não saí da cama até à manhã seguinte. Nem dormi no meu apartamento na noite a seguir. O mais esquisito é que se instalou em todo o prédio uma estranha quietude que durou várias semanas. Dias depois ouvi duas pessoas a conversar na sala da lavandaria; parece que outras pessoas do prédio se tinham também apercebido de qualquer coisa, mas não sabiam explicar o que era. Voltemos agora à parte que eu deixei de fora.

Foi nessa noite que comecei a receber o que tinha pedido. Levou umas semanas a desenvolver, mas diria que começou lentamente e depois ficou fora de controlo muito rapidamente.

Sabem que tenho tentado reconstituir aquela noite e tenho tentado recordar exactamente o que tinha pedido, mas não consigo lembrar-me com exactidão. Sei que tinha qualquer coisa em mente, mas não consigo lembrar-me do que é que me valeu o que recebi. Tornou-se um pesadelo constante que durou 12 anos ou perto disso. Vou contar-vos esta parte duma assentada, sem interrupções.

- Força! – disse Ed.

Num dia de Abril de 1987, acordei de manhã cedo. Fora uma noite agitada com muitos sonhos. Tudo o que conseguia recordar é que decorria uma espécie de batalha. Só me restavam fragmentos. Lembro-me dessa manhã muito claramente; nada poderia jamais apagá-la da minha memória. Eu estava totalmente esgotado e parecia que tinha desbaratado a minha vida em combate. Lembro-me de me ter levantado da cama muito lentamente para ir para o emprego, mas quando saía da cama senti-me muito esquisito, como se estivesse fora do corpo, ou talvez possa dizer aparentemente separado do meu corpo. Tonto e desorientado, resolvi deitar-me outra vez mais uns dez minutos antes de me preparar para o trabalho.

Antes de fechar os olhos, notei que tudo parecia bastante cinzento e descorado. Devo ter deslizado para o sono muito rapidamente porque aquilo de que me lembro a seguir é que parecia estar no corpo de outra pessoa que levava nos braços uns pedaços de madeira. Era quase como se fosse eu a carregar esses pedaços de madeira nos meus braços, mas posso dizer que não era o meu corpo e não era eu que o controlava. Mas ao mesmo tempo parecia como se fosse eu. A melhor maneira de explicar este estranho fenómeno é que havia dois de nós no mesmo corpo, com todos os sentimentos e sensações correspondentes, excepto que o outro é que controlava. Ele/nós andávamos a apanhar mais pedaços de madeira, por vezes parando por momentos para dividir ou encurtar alguns pedaços, com um machado que podia ser descrito como medieval. Era tudo tão real como a vida quotidiana, mas extremamente confuso porque eu ouvia os pensamentos dele como os meus, ao ponto de dificilmente poder dizer que eram os pensamentos dele. Havia pensamentos que eu sabia que não eram meus por causa do que ele estava a pensar. Ele era casado e, de acordo com os seus pensamentos, era casado com a mulher mais bela do seu mundo. Era muito feliz. Eu não era casado nem tão-pouco era assim feliz. Tentei olhar em volta mas não conseguia voltar a cabeça nem olhar para lado nenhum a não ser para onde ele estava a olhar. O que eu via eram montanhas com tufos de árvores espalhadas aqui e acolá. Muitas árvores já tinham perdido as folhas e havia no ar uma fragrância característica do Outono. Eu sabia que aquilo não era real, que não passava de um sonho. Era como se eu estivesse a sonhar mas perfeitamente consciente de estar a sonhar. Era quase mais real do que qualquer outro sonho que tive jamais. Não sei porque é que não entrei em pânico; se considerarmos os pormenores todos, devia ter entrado. Acho que foi ele. Ele estava feliz e em paz, de um modo muito simples. De certo modo os pensamentos dele tornaram-se meus, ou talvez eu os tenha aceitado como meus.

As suas mãos e braços estavam queimados pelo Sol; parecia que trabalhavam arduamente. Eram muito parecidos com os meus, embora talvez um pouco mais curtos, ou pelo menos assim parecia. Era uma sensação estranha ter umas mãos que faziam coisas sem ter os meus pensamentos ligados a elas; no entanto eu via-as através dos olhos dele, como se elas fossem minhas. Ele andava a apanhar ramos secos que tinham caído das árvores. Eu via o chão aproximar-se e uma mão chegar a um ramo e colocá-lo no topo de uma braçada que a outra mão segurava. Ouvia os pensamentos dele como se fossem meus. Apanha, procura mais madeira e aponta para casa para o pequeno-almoço. Não era a palavra “pequeno-almoço”; era uma refeição matinal. Um pequeno fragmento de madeira, uma lasca, alojou-se entre dois dedos. Senti isso, mas ao mesmo tempo não pude reagir.

Tentei fechar os meus olhos, ou os olhos dele, e regressar a casa e ao meu corpo, mas não podia fechar os olhos senão quando ele piscava os dele. Normalmente não presto atenção ao piscar dos olhos, mas neste caso não era eu que controlava, o que tornou isso tão óbvio como haver alguém a apagar e acender as luzes. Só quando eu via ou notava qualquer coisa através dos olhos dele é que ele piscava ou esfregava os olhos; isto estava a tornar-se um tanto fastidioso, e de cada vez que eu tentava querer-me em casa e no meu corpo ele resolvia que era tempo de ir para casa, mas no último momento ele descobria outro pedaço de madeira.

O que ocupava a maior parte do meu tempo é que os nossos pensamentos se misturavam. Se eu pensava alguma coisa, ele pensava-a nos seus próprios termos, e eu pensava-a outra vez… Era como se os nossos pensamentos andassem em círculos. Também ele se sentia um pouco desconfortável, embora não tivesse palavras para o descrever, o que me parece que era de esperar se considerarmos que eu estava no corpo dele. Eu não estava nervoso nem assustado, mas não me sentia bem.

De repente, houve um arrepio que lhe subiu pela espinha acima quando ele se voltou. Dois pedaços de madeira caíram-lhe do molho que ele tinha no braço. Ele olhava para o cimo de um monte e decerto estava à espera de ver fumo. Aparentemente tinha acendido o fogo antes de ir buscar mais madeira. A manhã estava muito fresca e ele pensava que a mulher e o filho iam manter o fogo aceso. Tinha mais madeira armazenada. Apanhar mais lenha era apenas uma tarefa matinal da rotina diária. Ele pensava que tinha forçosamente de haver fumo tendo em conta que não havia vento, o que era algo em que eu não tinha reparado.

Houve um momento de quietude na sua mente, na minha mente. No momento seguinte fiquei nervoso com este sonho, ou ele ficou nervoso; não tenho a certeza de quem começou. Mas ele ficou mais alarmado e não apanhou os pedaços de madeira que deixara cair momentos antes. Começou a caminhar na direcção de um monte onde fixava o olhar. Naquele momento eu não fazia a mínima ideia do que ia acontecer nem se isso ia afectar o resto da minha vida. Nós/ele começou a andar a passo lento, acelerando ligeiramente o andamento a cada passo. Quanto mais se aproximava do monte mais seguro parecia de que devia haver fumo visível. Quando chegámos ao cume deste monte já ele tinha deixado cair mais pedaços de madeira.

Era difícil concentrar-me e separar os pensamentos dele dos meus, porque havia uma chusma de pensamentos que lhe acorriam à mente e ao mesmo tempo ele afastava-os dizendo que estava tudo bem.

Quando alcançámos o cume deste monte vi uma pequena edificação feita principalmente do que parecia terra batida com uns veios de madeira aqui e acolá. Tinha uma pequena abertura feita em parte de pedras e ramos. Havia três cavalos em frente desta casa, que por ora eu julgava ser a casa dele, mas os cavalos não eram dele. A casa ficava talvez a pouco mais de cem metros. Ele podia ver claramente que não havia fumo a sair da chaminé, mas foram os cavalos que o puseram ansioso. Logo deitou para o chão toda a madeira que transportava e largou a correr pelo monte abaixo. À medida que corríamos ele agarrava um pequeno machado improvisado que estava atado à cintura. Só o vi de relance. A três metros da casa parou, à escuta e de olhar fixo na porta. O coração dele galopava. Ali ficou uns escassos segundos, com o pulso aceleradíssimo. Os pensamentos corriam-lhe em tumulto. Eu sentia-me paralisado e com um nó no estômago. Por alguma razão veio-lhe ao pensamento a imagem duma janela. Reparei que não havia janelas. A casa era principalmente feita de lama e pedras, com uns quantos paus aqui e ali, salientando-se do telhado de colmo. A casa inteira mal chegava ao tamanho de uma garagem só para um carro. Os três cavalos estavam presos às rochas do solo.

Ouvi como que um grito abafado, e a seguir a única coisa que eu percebi é que ele se esforçava por arrombar a porta.

O que aconteceu a seguir pareceu durar uns escassos segundos, mas esses momentos estão gravados para sempre na minha memória. Possivelmente, mas não necessariamente, perdoáveis; mas inesquecíveis. Fiquei perdido no que ele via e sentia; tudo o mais se desvaneceu. Nesse ponto senti como se fosse ele, não havia distinção.

Ed e Sally estavam sentados mesmo à beirinha dos seus bancos. Parei por momentos para normalizar a respiração e controlar as emoções. Falar disto trouxe-me tudo à memória, bem como tudo o que senti.

- O que aconteceu a seguir é pouco agradável – disse eu, olhando para Ed e Sally. – Mas aqui vai.

Quando a porta se escancarou, o que aconteceu e os sentimentos que isso despertou, foi como uma explosão emocional.

Por essa altura, o que ele experimentava, experimentava eu também. Tínhamo-nos fundido um no outro. A mulher dele estava deitada numa mesa. Havia um homem em cima ela e um outro segurava-a. Um terceiro homem, a poucos passos da mesa, ria e bebia qualquer coisa. Não sou capaz de descrever o que lhe veio à cabeça quando viu isto e acho que vocês não conseguem imaginar porque nada do que senti até hoje se lhe pode comparar. Eu não tinha reparado mas ele já tinha o machado na mão. Houve um momento de choque, dele e dos outros, mas foi nesse momento que ele reagiu dando três passos para diante; e o machado cravou-se nas costas do homem que estava em cima da mulher. Ele soltou um grito, e ao mesmo tempo o que segurava a mulher tentou reagir puxando duma faca, mas ele descravou o machado das costas do primeiro e desferiu um golpe preciso que cortou a garganta do segundo homem. Houve um jacto de sangue. Brandindo o machado, fez um círculo e lançou-o contra o terceiro homem atingindo-o no peito. Ele tombou para trás com o machado cravado no peito. Em seguida, sem um pensamento, desamarrou o único braço da mulher que estava amarrado e tentou puxá-la para si. O homem que estava por cima rolou para o chão e ele segurou a mulher nos braços; parecia em muito mau estado e decerto sem consciência do que se estava a passar. Quando ele pegou nela, acho que a intenção era depô-la numa pequena cama a um canto do quarto; foi então que senti que qualquer coisa nele se desmoronava por causa do que acabava de ver: o filho jazia no chão com a garganta cortada. Poupo-vos o resto da história omitindo os pormenores. A mulher morreu-lhe nos braços umas horas depois. Um dos homens ainda estava vivo; morreu mais tarde, lentamente, mas não antes de me dizer quem eles eram, donde tinham vindo e quem eram as famílias deles.

Um pouco mais tarde saí deste estado semelhante ao sonho, mas estava totalmente exausto e emocionalmente esgotado. Não foi como assistir a um filme porque eu era ele, eu sentia tudo, e mesmo depois de sair daquilo sentia como se continuasse a ser ele e aquilo me tivesse acontecido a mim naquele momento da minha vida. Não sei capaz de explicar isto doutra maneira senão dizendo que não havia distinção entre a vida dele e a minha.

Percebi que Ed queria perguntar qualquer coisa mas não sabia que dizer. As lágrimas corriam pelo rosto de Sally.

- Eu vou explicar-vos isto – disse eu. – No fim vai fazer sentido.

Espreguicei-me um pouco tentando descarregar as minhas emoções. Ed limitava-se a acenar com a cabeça. Acho que Sally não desejava ouvir muito mais, e por isso abreviei e deixei de fora os pormenores sangrentos.

Deixem-me então explicar a coisa desta maneira: nos 12 anos subsequentes, 4 ou 5 noites por semana, nos meus sonhos convertia-me nele e vivia a vida dele; fizesse o que fizesse não conseguia acabar com aquilo. Isto era exaustivo e quase de enlouquecer. Na vida dele eu era como peixe fora de água, e quando pela manhã voltava à minha vida não me sentia muito melhor. Com o tempo habituei-me àquilo de tal modo que ser ele era uma parte da minha vida. Havia uma grande diferença entre a vida dele e a minha. Eu fumava 25 cigarros por dia e isso ultrapassava à justa a média de mortes que ele fazia diariamente.

Nesses 12 anos que estive com ele, ele viveu 25 a 30 anos aproximadamente. A primeira coisa que aconteceu foi que ele pôs-se em marcha para matar a família toda daqueles três homens. Fez isto meticulosamente, obtendo de cada vez mais informação e aprendendo a lutar. Foi brutal: crianças, mulheres, velhos, nada importava. Constituiu-se então por causa dele um grupo de homens muito vingativos, um grupo que se tornou um exército. Muitas coisas aconteceram entretanto, e ao longo do tempo ele abrandou um pouco, um pouquito. No entanto, nos 12 anos que estive com ele, não realizei absolutamente nada, ao passo que nesse tempo ele formou um império que se estendeu pela Europa.

Vi tanta luta, tanta morte, tanto sangue, tanta coisa realmente feia e indesejável que sai do alcance das palavras. Havia pessoas com tanto medo dos seus exércitos, que se matavam a si mesmas no campo de batalha só para não ter de enfrentar os seus homens. Acho que isto diz tudo. A certa altura ele morreu, como todos nós havemos de morrer um dia. Não sei exactamente como é que isso se passou, mas coisas houve que aconteceram como resultado disso. Até certo ponto eu tornei-me nele, e em certos aspectos ele tornou-se eu. Acho que ele tinha sonhos com a minha vida, o que o perturbou durante anos. A ironia disto é que a minha vida era para ele tão feia como a dele para mim. Pelo que pude deduzir, creio que ele me via como um cobarde que deixava as pessoas fazer de si gato-sapato e que trabalhava para outros por uma magra recompensa, e por aí adiante. Pois bem, em 1999 quase o tornei orgulhoso, mas ao fim e ao cabo não levei a coisa a bom termo, e portanto vou deixar morrer essa parte da história.

A outra coisa que resultou disto foi um certo conhecimento dos pontos de energia, ou do que alguns chamam vórtices energéticos. Ele utilizava estes pontos de energia regularmente quando travava uma batalha, e fazia todo o possível por que a batalha tivesse lugar nesses pontos de energia. Fora um velho feiticeiro das montanhas que, durante um largo espaço de tempo, lhe tinha mostrado e ensinado aquilo, e ao mesmo tempo também a mim. Foi graças ao trabalho dele com estes vórtices que eu acabei por entrar na vida dele e ele na minha. A energia destes vórtices dava-lhe uma vantagem enorme. Constava que ele levava 10.000 homens, lutava contra um exército de 40.000 e vencia, com poucas baixas. Os sobreviventes dos 40.000 diziam que tinham lutado contra 50.000 ou 60.000, mas eram só 10.000.

Infelizmente ele só via um propósito nestes vórtices ou pontos de energia, mas eu via algo mais. Se ele não tivesse espalhado o caos à sua volta com estes vórtices, eu não teria sido arrastado para a sua linha de tempo, para a sua vida, e não teria percebido o que é que faz do enviar amor uma coisa tão poderosa e tão perigosa para alguns, ao ponto de fazerem não importa o quê para evitar que as pessoas soubessem disso.

Mas isto não é tudo. Não vou agora entrar no assunto a fundo, mas foi por causa destes vórtices que entrei em contacto com um outro eu, e foi ele que fez este parecer uma pêra doce. Mais tarde explico.

Procura a luz

Acho admirável como as nossas vidas se parecem com as árvores

Esticamo-nos para tentar chegar à luz e tocar o Sol

Mas as nossas raízes são profundas e estão enredadas no

Passado, futuro, presente, vidas passadas e, claro, umas nas outras

Parece que andamos à roda, em círculos

Enfrentando continuamente os nossos medos, o ódio, a cólera

Até conseguirmos convertê-los em Amor

 

 

DEZ

Decidi que precisava de uma pausa, e Sally e Ed também. Disse-lhes que ia dar uma volta e proporcionar a Roody um pouco de exercício. Aliás eu calculava que Ed e Sally precisassem de algum tempo para assimilar tudo.

Enquanto andava lá por fora a passear e a brincar com Roody, pensei no que tinha contado a Sally e Ed e se devia contar tudo até à data. Certas coisas eu não revelava, e tinha alterado parte da história. Preocupo-me com o que escrevo e como isso vai afectar os outros. Durante muito tempo, tudo quanto eu queria era viver num barco à vela e ser caçador de tesouros. Não pelo ouro ou pelo dinheiro, mas pelo fascínio da coisa em si; imaginar como é que as coisas tinham ido parar ali, quem as teria feito, etc. Talvez um dia tudo isto tenha acabado e eu terminado os meus livros e possa então viver esse sonho. Mas lembro-me agora por que tive esse sonho. Era para me ver livre de tudo isto e de todas as coisas que aconteceram. De volta ao restaurante, formulei um desejo: desejei recuperar essa maravilha, parte dessa maravilha que desfrutara em criança antes de acontecer tudo o mais. Mas reparei então que tudo isto começou quando era criança.

Quando Roody e eu voltámos para o restaurante, Sally estava precisamente a pôr mais água na tigela de Roody, que estava no sítio onde ele estivera deitado antes de sairmos.

- Achei que depois do passeio ele podia querer água fresquinha – disse Sally.

Roody bebeu a água quase toda e depois continuou a soneca.

Quando me sentei no meu banco, Ed perguntou-me se eu queria alguma coisa. Eu disse que uma bebida gasosa ou qualquer outra coisa estaria bem.

Sally fazia festas a Roody e falava para ele. Ao colocar o copo na minha frente, Ed observou que eu tinha uma expressão preocupada. Acenei que sim com a cabeça e disse que só estava cansado de tudo aquilo e queria acabar de escrever e pôr um ponto final em tudo; e de preferência que as pessoas me deixassem em paz. Mas nada disso vai acontecer, isto nunca mais acaba; assim que chego a mais alguma conclusão e a escrevo, surge uma outra coisa e lá começa tudo outra vez. E depois há o receio de ficar totalmente louco e nem sequer o saber; e o pior de tudo é a possibilidade de arrastar outros para o caminho da minha loucura. De certo modo eu sei que estou a fazer o que devo, mas às vezes preocupo-me. Não podemos deixar de nos preocupar, ainda que nos preocupemos só um pouco. Por vezes sou sacudido pela emoção de pensar o que poderá acontecer se… Em certa altura costumava interrogar-me: porquê eu? Entre tanta gente, porquê logo eu? Foi então que me mostraram porquê. Foi um choque. Mas ao mesmo tempo já o sabia; só que não o queria aceitar.

- Que quer dizer? – perguntou Sally.

Olhei para Ed porque tive a sensação de que ele já tinha percebido.

- Ed… então? – disse eu.

Ed olhou para Sally e disse: - Penso que algures no passado, no futuro, numa vida passada ou provável, seja onde for, ele é de algum modo responsável, pelo menos em parte, porque as pessoas esqueceram o poder que têm e como usá-lo.

Sally olhou para mim com ar de quem diz desculpem…, e perguntou: - É isso?

- Então, não faz sentido? – respondi. E continuei: - Acho que vamos deixar a coisa por aí. Preferia que ficássemos assim. Quer dizer, é uma merda, não é? Num extremo tenho um ego que mata pessoas aos milhares e usa os vórtices para fortalecer os seus exércitos. No outro extremo tenho um ego que trabalha para defender milhões de pessoas escravizadas. Nem sequer me importam as razões, e só Deus sabe quantos mais semelhantes a mim fazem a mesma coisa.

Ficámos um tempo em silêncio. Depois comecei a explicar como é que as coisas funcionam como egos passados, egos prováveis, etc. O que debatemos foi o que está escrito no início deste livro sob o título “Algumas palavras antes de começar”.

Chegou a hora de fechar o restaurante. Dei-lhes tempo para trancar as portas e fechar a cozinha, e foi nessa altura que Sally observou que nunca tinha visto o restaurante tão sossegado. - Mais uma daquelas coincidências…

- Não, acho que não…

Levaram cerca de meia hora a encerrar e limpar tudo. Depois de tudo pronto é que me ocorreu que talvez devesse ter-me oferecido para ajudar, mas estive absorto em pensamentos, e de certo modo senti que me havia saído um peso dos ombros. Agora que escrevo isto estou a sentir o mesmo. Falta ainda uma parte, e é essa pequena parte que está no centro de tudo. É este pedaço de conhecimento que está a provocar tão grande tumulto em lugares e em mundos cuja existência a maioria das pessoas apenas fantasia. Algumas estão interessadas, outras receosas pela sua própria existência, mas só porque não compreendem o que é que vai acontecer. Uma coisa é as pessoas saberem disso, outra coisa é servirem-se disso; e vai acontecer independentemente do que se faça para o impedir. A profecia está lançada e realizar-se-á apesar de tudo. Os humildes herdarão a Terra e os céus, as galáxias e os universos. O mal-entendido está em que as pessoas pensaram que isso significava que os humildes da Terra herdariam isto, mas são todas as pessoas da terra que o vão herdar. O que segue é a chave para se saber como e porquê. Não tardarão a ver o que eu quero dizer, e é muito provável que vejam, no seu tempo de vida, mais do que só o princípio.

Ed e Sally sentaram-se depois de encerrar o estabelecimento e começaram a bombardear-me com perguntas, mas eu não estava pelos ajustes. Prefiro que as pessoas encontrem as suas próprias respostas. A maioria das questões levantadas durante a leitura deste livro pode ser facilmente respondida se recuarem um pouco e pensarem seriamente no assunto.

Temos a noção de quando compreendemos qualquer coisa porque é como se nos lembrássemos disso; é como dizermos ah, sim, eu sei, só que não estava a ver… Quando o leitor chegar a essa última parte do livro vai achar que já sabia de tudo, só que não se lembrava.

- Ora bem, aqui vai o resto da coisa, a parte que é realmente importante – disse eu para Ed e Sally. – O facto de eu estar aqui a falar convosco e de vocês planearem ir viver em vários centros de grande energia é uma grande coincidência, não é? – perguntei, com um sorriso.

- Vamos então falar um pouco desses vórtices, que têm qualquer coisa de muito especial – disse eu. E continuei: - O que estes vórtices têm é que são espaço intemporal no meio de todos os mundos. Por outras palavras, estes vórtices são uma espécie de portais de entrada para qualquer sítio do universo e galáxias e, melhor ainda, são uma espécie de portais de entrada para todos os mundos prováveis. Como vivemos enquadrados no tempo, vemos as coisas como passado, presente e futuro, e há muita gente que de algum modo acredita em vidas passadas; mas num espaço de existência intemporal tudo acontece no mesmo momento, e é a ilusão do tempo que faz com que as coisas pareçam acontecer umas a seguir às outras. Assim, se soubéssemos como aproveitar estes vórtices, poderíamos enviar uma nave espacial e chegar à borda deste universo instantaneamente e voar por aí e observar todas as coisas. Ora é aqui que está o prodígio, porque poderíamos de facto entrar nos vórtices e voltar aqui apenas em poucos minutos depois de sair daqui, mesmo tendo passado semanas a viajar por outros lugares. Parece que recuamos no tempo, mas estamos apenas a transpor um portal e estamos precisamente a escolher o portal que se abre num lugar do tempo donde acabámos de partir. Estão a ver?

- Acho que sim – respondeu Ed.

- Absolutamente – respondeu Sally. – Isso responde a muitas questões.

- Acho que percebi – respondeu Ed. – Portanto podíamos viajar para outro planeta instantaneamente e voltar depois pelo mesmo caminho. O mais difícil, parece-me, seria encontrar o portal certo para o mundo provável certo donde viemos.

- Nem mais! – respondi. – Mas não é aí que está a magia – acrescentei, entusiasmado com a ideia de que eles aceitavam como provável que isto estivesse correcto.

- Faz todo o sentido, porque tudo no universo deve estar ligado e teria assim os seus pontos de ligação – respondeu Sally.

Exactamente. Todas as coisas em toda a parte estão ligadas através destes centros de energia, e há biliões e biliões deles de todas as formas e tamanhos; e podem ser tão pequenos como a ponta de um alfinete e grandes ou maiores do que planetas. Há muito mais a dizer sobre eles, e são fascinantes, mas estamos sobretudo interessados numa coisa. E agora chegamos à parte engraçada. Se lançarmos uma maçã para dentro dum deles – isto é só um exemplo, claro – o que recebemos não é uma maçã vinda da outra extremidade; o que vamos receber é uma maçã que vem de todos os vórtices suficientemente grandes para suportar esse tamanho. Bom, isto torna-se um bocado confuso… mas vejam: estes vórtices são intemporais, e portanto, em certo sentido, estão em todo o lado ao mesmo tempo. Não podemos atirar lá para dentro uma maçã, mas se soubéssemos como fazê-lo haveria uma maçã a sair de cada um deles. Se soubermos como, podemos também mandar lá para dentro uma maçã e fazê-la sair só por uma abertura.

- Esta parte já é um bocado complicada para mim! – disse Ed.

Eu sei que é difícil de entender, mas a ciência já descobriu que certas partículas podem estar em diferentes lugares ao mesmo tempo. É assim: se podemos viver várias vidas, então se eliminarmos o tempo essas vidas são vividas todas ao mesmo tempo; isso significa que estamos em mais de um lugar de cada vez.

- Estou mais ou menos a ver, mas é difícil de apanhar completamente – respondeu Sally, enquanto Ed acenava com a cabeça.

- Faz sentido mas é difícil de compreender completamente – respondeu Ed.

Concordo que me levou também muito tempo a entender, mas se vocês pensarem nisso, virá o tempo em que começa a fazer sentido. Deixem-me dizer mais qualquer coisa sobre o assunto. Já há cientistas a trabalhar nisto, já vão ao ponto de criar energia a partir destes vórtices, e procedem de modo semelhante, enviando para lá energia e tentando verificar donde é que ela sai. A forma como o projecto funciona é que envia-se energia para um (vórtice) e depois recebe-se de volta em, digamos, dez vórtices diferentes; e como ela vai sair na mesma quantidade em que a enviámos mas em dez sítios, vamos assim receber, com efeito, dez vezes a energia que enviámos. Têm tido muito êxito com o projecto, mas o problema era, e ainda é, controlar o ponto em que a energia sai, porque se ela sai num ponto em que não temos uma coisa qualquer para tornar a captá-la, é como ter um cabo eléctrico suspenso no ar; isto é apenas uma metáfora, a coisa é bastante mais séria.

E agora vem o mais importante. Já compreendemos, pois, o poder que nós temos quando sob a forma daquilo a que por ora chamamos “enviar amor” por falta de expressão melhor.

- Ah, sim – disse Sally.

Pois muito bem: se enviar amor pode ter efeito nas nossas vidas e também no que acontece aos outros e ao mundo em geral, que aconteceria se vos dissesse que, por alguma razão, se enviarmos amor para esses centros de energia, ele sai automaticamente por cada um deles em toda a parte? Reparem: estou a dizer em toda a parte aqui e em todos os planetas em todas as galáxias. Em toda a parte neste planeta e em todos os mundos prováveis, o amor vem cá para fora ao mesmo nível em que foi enviado lá para dentro, e sai na mesma quantidade em todos eles (os vórtices) ao mesmo tempo, no mesmo momento. Pensem nas implicações. Os humildes herdarão a terra. Bom, há qualquer coisa que falta: os humildes vão herdar tudo, e por uma razão, e só uma razão, porque o poder que criou toda a vida flui através de nós e pode ser dirigido para onde quer que desejemos. E esta é a parte que outros tão desesperadamente querem travar, porque não entendem esta coisa a que chamamos amor e pensam que as pessoas vão governar os mundos e as galáxias e portanto controlá-los; mas não é desse modo que o amor trabalha. Vocês podem ir às regiões mais distantes das galáxias, a qualquer planeta povoado, que encontram lá profecias de um povo que não vem de lado nenhum e vai mudar a face de tudo o que foi criado. Aonde quer que vão, hão-de encontrar estas profecias; alguns regozijam-se, outros pensam que será a destruição deles. Vocês sabem como as coisas podem ser viradas do avesso: para alguns, o que vai tornar-se a sua felicidade pode ser encarado como a sua morte. Falar do poder que está em nós, do poder que reside em nós, pronto para trabalhar para nós, para criar o paraíso na terra e em tudo o mais, é a coisa mais perigosa que se pode imaginar. Dizer como se pode fazer isso com os vórtices significou no passado uma sentença de morte para muitos.

Deixem-me explicar deste modo: não sei o número exacto de vórtices neste planeta, mas digamos que são um milhão. O que isto quer dizer é que se enviarmos amor todos os dias e se enviarmos esse amor para os vórtices uma só vez, ele vem cá para fora num milhão de sítios diferentes em todo o mundo, o que perfaz um milhão de vezes o que foi enviado. Quando me mostraram isto pela primeira vez quase caí da cadeira, mas já tinha estudado estes vórtices e feito algumas coisas com eles. No meu primeiro livro conto como viajei ao futuro e obtive os resultados da lotaria desportiva; mas o que eu não contei foi que para conseguir isso também usava um desses vórtices. Por isso percebi do que eram capazes esses vórtices, e quando me foi dada esta informação é que tudo fez sentido.

E agora pensem nisto: vocês acreditam realmente que deus nos fez à sua semelhança e não nos deu uma ligação ao seu poder criador para criar beleza e amor onde quer que vamos? Que pensavam vocês que queria dizer criar o homem à sua semelhança? Pensavam que isso se referia ao aspecto exterior? Sejamos realistas! Isso significa que temos em nós a centelha infinita de vida e amor, à espera de ser libertada.

Perguntam alguns a si mesmos porque é que lhes foi ocultada e por que razão haviam outros de tentar detê-la. Se é isso o que pensam, então têm de despertar para o que se passa à vossa volta. Por que haveriam aqueles que detêm o poder, aqueles que têm o comando, por que haveriam eles de pretender que vocês descobrissem que são vocês que têm o comando, que têm em si o poder? Isto não é coisa que eles desejem. A maneira de viver deles há-de acabar, mas antes que isso aconteça hão-de lutar até ao fim para o impedir. Digam-me francamente: as guerras que travámos e em que morremos foram pelo bem-estar do povo ou simplesmente pela vaidade e o poder de uns poucos? Será que esses poucos desejam realmente que tenhamos o poder para nos rebelarmos e dizermos não aos processos deles? Acham que alguém noutros planetas, sequioso de poder, desejaria que tivéssemos o poder de mudar os seus modos de vida? Que ele mate e escravize milhões de vidas nada significa para ele – é isso que ele sabe e pretende. Há também muitos planetas com seres de natureza diferente que querem que isto aconteça e deram a vida para proteger esta terra e as pessoas que estão nela; doutro modo não estaríamos aqui. O amor não domina outrem, mas tem o poder de pôr termo ao domínio de outrem.

Não estou a dizer isto de uma forma muito agradável, mas se não conseguirem perceber sequer a possibilidade de o que eu digo ser uma possibilidade da verdade, então é porque estão realmente adormecidos e a desperdiçar o meu tempo e milhões de vidas de pessoas que deram a vida para nos proteger, para que fôssemos capazes de cumprir as profecias. Há outros seres no exterior que acham que também possuem estas capacidades, mas parece que os humanos possuem a mais elevada capacidade no que respeita ao enviar e libertar amor. Isto é bastante irónico se tivermos em conta que os homens há muito tempo que são escravos e muitas vezes têm sido criados como gado, para serem escravos. Mas parece ser assim que o criador funciona, pois no final serão os humildes que herdarão a terra. Por tudo o que foi feito aos humanos, eles não perceberam que estavam a criar uma raça de super-seres que havia de transformar tudo o que foi criado. Os humanos foram mutilados severamente, ao ponto de se terem travado muitas guerras por mero entretenimento, como um jogo de xadrez. Eu sei que isto é difícil de aceitar, mas as provas estão ao nosso alcance; basta olhar para elas. Há pessoas que acreditam que os extra-terrestres têm vindo até aqui, especialmente agora; compreendem porque é que estamos a despertar tanta atenção? Os profetas falam de uma grande destruição, mas não aconteceu. O que não foi dito é que havia outros que tentavam destruir-nos a fim de destruir a profecia – a profecia que está dita em inúmeras formas em inúmeros mundos. Alguns dos chamados extra-terrestres tiraram amostras genéticas e outras coisas dos humanos para reinstalar na gente da sua própria raça a capacidade de trabalhar com o amor; e estão a ser bem sucedidos. Mas nisso somos nós, humanos, os mestres.

E agora mais uma coisa que vos poderá dar que pensar: porquê eu? Questão bem simples. Em outras probabilidades eu estive a trabalhar na outra facção, a trabalhar arduamente para impedir que esta informação fosse divulgada, e fui muito bem sucedido. Quando pela primeira vez descobri como era negro o meu lado negro, quis pôr termo à vida. A vossa imaginação não pode conceber quão longe foi naquele intento essa parte de mim, e que preço paguei por isso. Claro que ele (o meu lado negro) não está sozinho, mas uma parte dele, uma grande parte, é tão inimaginável como insuportável. Com o tempo compreendi como e porquê, e por essa altura já ele me tinha quase seduzido; quase, de modo que vocês podem ver que eu escrevo isto como uma espécie de compensação. Se somos ou não capazes de acompanhar a corrente vai depender de qual profecia vai governar os próximos 2000 anos.

Uma última palavra

Nesta altura não posso dar-vos instruções exactas. Se tiverem vontade, vão descobri-las. É o vosso destino.

Podem enviar amor para qualquer destes vórtices. Escolham apenas o que vos parecer melhor, e tudo o que precisam de fazer é adicionar a vossa intenção de que o amor deverá sair por todo o lado. Não custa absolutamente nada. Eu sei que parece fácil demais, é verdade. Mas não sou eu que faço as regras, apenas as descobri. Quanto mais olharem para tudo isto, melhor perceberão que tudo foi concebido assim. No entanto funciona. O resto virá ter convosco; de algum modo, ser-vos-á mostrado. Para as instruções serem dadas em pormenor seria preciso um livro inteiro. A informação está em vocês e virá à superfície quando começarem. É como uma cápsula: assim que as pessoas começam a pensar no assunto e a fazer alguma coisa, começa a abrir. Há muitas outras coisas que podem ser feitas com estes vórtices.

Muitas pessoas me fizeram perguntas sobre outras coisas, como a oração. Claro que a oração há-de funcionar. Que pensam que acontece enquanto estão a orar? O vosso coração abre-se e envia amor. Reparem que é uma coisa muito boa que tem o enviar amor: podemos aplicá-lo a quase tudo o que fazemos. Se gostamos de orar por alguma coisa, por que não enviar amor conjuntamente? Agora se oramos de uma forma que não abre o coração e liberta amor, então não há resultados. Tão simples como isto. Não importa qual a religião que se tem ou se pratica ou que outras coisas preferimos. Basta acrescentar a isso o abrir e enviar amor e logo vemos a grande diferença. Assim, podemos dançar ao luar à volta de uma fogueira, como faz a minha mulher com os amigos, e enquanto nos abrirmos e enviarmos amor durante o que estamos a fazer, isso vai resultar em nosso benefício como nunca anteriormente.

Os humildes vão herdar a terra, e agora sabemos como e porquê.

Todo o meu amor

Klaus

Guerreiro

Guerreiro combatente de sonhos quebrados

Não vai matar o dragão

Mas

Faz frente à força dele com amor

Olhos nos olhos combinam a força de ambos

E reparam os sonhos quebrados

Unidos tornam-se um

O fogo do dragão

O amor do guerreiro

Como um

Tornam belos os nossos sonhos

E revelam os segredos

Ao universo

Roberta Joehle

As nossas árvores

Quando era mais novo, a maior parte do meu tempo, se não o meu tempo todo, era passado com as árvores no outro lado do lago, aonde não ia ninguém a não ser eu. Dizia-se que esta parte da floresta estava assombrada. Eu via apenas amor quando brandia a minha espada e passava o dia inteiro a jogar à espada com estas belas Árvores – os meus únicos verdadeiros amigos. Ensinaram-me a lutar e a defender-me sem perigo; a defender o que mais ninguém se atreveria; a acreditar naquilo que apenas fazia rir os outros. Os dias passavam-se tão bem que a dor da minha solidão nunca estava à vista. Um dia fizeram-me as malas e pouco depois chegava, sem meu consentimento, ao outro lado do mundo. Aí as Árvores não entendiam o que eu tentava fazer. Eram diferentes, mais jovens e sem aquela sabedoria ancestral. O meu coração despedaçou-se, as minhas lágrimas correram durante anos. À medida que envelhecia e ensinava a algumas Árvores daqui o que aprendera com as antigas, o meu coração começou a sarar. Agora, trinta e quatro anos mais tarde, ouvi dizer àquelas que não produzem qualquer som nem falam língua nenhuma, que elas estão a morrer aos milhares. Optaram por partir. Haverá tempo para tornar a vê-las? Provavelmente não, pois há outras tarefas a que tenho de atender. Que insensato eu fui ao pensar que elas ficariam lá para sempre.

Eis como me sinto, pois com elas morre um pedaço do meu coração.

Klaus J Joehle

O que nós esquecemos foi criar com amor

Não com os nossos egos, pensamentos, medos ou crenças,

Mas com Amor

Ou talvez, melhor dizendo,

Eu tenha esquecido

Klaus J Joehle

Instruções

Estas instruções vão ser curtas e simples. Na verdade, demasiado simples para a jornada que vocês vão empreender. Se aceitarem esta jornada através do poder do amor tal como vos expliquei em enviar amor, estarão seguros e será uma jornada de auto-descoberta, de júbilo pelo auto-fortalecimento. Vão sentir como se voltassem a casa, mas de facto vão apenas chegar ao conhecimento de que nunca saíram de casa; só desligaram o fluxo do criador e do amor e da alegria. Esta jornada será diferente para cada um, e até aqueles que viajarem juntos vão descobrir tesouros diferentes dos outros, pois os prodígios do criador são infindáveis. Cada um tem de empreender a jornada à sua maneira própria, sem ser julgado nem conduzido por outros. Não podem seguir o líder, mas cada um tem de seguir a sua alegria própria sem ser conduzido por outro. Como podem ver, pois, nem eu nem ninguém mais vos pode dar um mapa das estradas para seguir. Alguns hão-de tentar. Não os sigam, sigam a vossa própria alegria, e desse modo seguirão o criador em vocês, o criador daquilo que são. Podem falar dos tesouros que encontrarem lá, mas deixem que os outros encontrem os seus próprios. Poderá não haver ouro numa ilha, mas 10 pessoas podem lá achar tesouros. Um pode achá-lo na areia, outro pode achá-lo dormindo à sombra de uma palmeira, outro nas águas tépidas.

Não pode haver nenhum mapa. Em vez disso eu digo-vos que a ilha existe e como hão-de achar o mapa em vocês mesmos: o vosso mapa, a vossa alegria, o vosso amor e o vosso criador, seja qual for a forma em que ele/ela vos possa aparecer. Aceitariam menos do que isto? Tal como nós, tal como cada um experimenta o fluxo de enviar amor diferentemente, assim cada um experimentará o que vier a seguir à sua maneira própria.

Esta é uma das muitas maneiras de interagir com os centros de energia ou vórtices. Eles vêm em todos os tamanhos e feitios. O truque é que não é necessário ir à procura do maior, mas sim daqueles que vibram connosco. Estes centros de energia estão por todo o lado e não precisamos de estar pertinho deles. Fisicamente podemos estar a milhares de quilómetros e mesmo assim interagir com eles como se estivéssemos lá; e por vezes a coisa até funciona melhor se fisicamente não estivermos lá mesmo. Cada um vai saber o que estará certo para si, porque vai senti-lo e vai perceber que eles reagem a si e se abrem como uma flor se abre ao Sol. Também o vosso coração se vai abrir da mesma maneira. Quando interagirem com eles com o vosso coração, podem sentir muitas coisas, como a sensação de ir para casa, ou uma conexão íntima, como se tivessem encontrado uma velha amizade. É simples: se se sentirem bem, é porque estão a trabalhar com o vórtice certo; se não vos está a dar alegria, deixem-no Usem o sentimento de alegria para vos guiar.

Como descobri-los!

Eis uma, apenas uma entre mil maneiras: abrindo o coração, imagine que é uma águia; o amor que vem de si vai criando asas a trezentos metros de distância. Veja-se a si mesmo deslizando através de lugares para onde você olha, passando por casas, árvores, etc. Deixe-se então sentir os centros de energia, como uma pena roçando ao longo das suas asas. Pode ir de um para outro até encontrar aquele que lhe parecer indicado para si. Pode então, se quiser, enviar amor lá para dentro e dirigi-lo intencionalmente para sair em milhares desses centros de energia em todo o mundo e em qualquer sítio que queira. Tudo o mais que poderá fazer ocorrer-lhe-á sob a forma de intuição e ideias de divertimento. Como eu disse, a jornada será diferente para toda a gente.

Apenas como sugestão, seria ainda melhor para si enviar amor para a sua vida como prioridade, e fazer isto quando se tornar divertido e interessante para si. Para isto não precisa de estar num estado de espírito profundo; um simples devaneio servirá muito bem.

Tudo o que posso dizer é que se você seguir aquilo que lhe dá alegria, estará a caminhar no sentido do seu bem supremo.

Todo o meu amor

Klaus

Sugiro vivamente que leia um livro chamado “Think and Grow Rich”, escrito por Napoleon Hill em 1960. Sim, é sobre dinheiro, mas se você o ler atentamente verá que os princípios se aplicam a todas as coisas, amor, paz, dinheiro, etc. Junte os princípios de enviar amor com os princípios de Napoleon Hill e tem uma combinação vitoriosa imparável. É que a lei do universo é simples; se a puder imaginar assim, assim ela poderá ser, e se for determinado na busca do que faz cantar o seu coração, pois assim será.

Entrego os meus livros como uma parte de mim mesmo. Embora dispendiosos em tempo e dinheiro, é um trabalho de amor. Se este livro for valioso para si, veja se há alguma coisa que gostasse de fazer. São muitas as opções à sua escolha. Poderia oferecer tempo ou dinheiro; um simples dólar ajuda a cobrir algumas despesas. Outra opção é falar do assunto aos seus amigos; isso ajudaria a reduzir as minhas despesas de publicidade. Se tem inclinação para isso, poderia escrever um artigo sobre os livros e o local onde se podem obter e entregá-lo a uma publicação local; ou então inserir um pequeno anúncio numa dessas publicações.

Quanto mais pessoas virem esta informação e a puserem em prática em favor delas, tanto melhor, não só para elas mas para toda a gente que as rodeia. Esta foi a dádiva que vos fiz. O que fizerem agora é convosco. É a vossa vida e o vosso mundo.

Escolham o que vos der alegria.

Todo o meu amor

Klaus J Joehle

Apenas um pensamento

Um pensamento positivo

Ou negativo

Um sentimento desejado

Ou não desejado

Pode ser alimentado por outros mas

Só pode ser criado através de vós

Concentrem-se nesses pensamentos

E não tardarão a converter-se na vossa realidade…

Encarem-nos sem receio

Creiam naquilo que sabem interiormente

E esses pensamentos, sentimentos

Vão vingar com a suavidade de uma pluma

Intocados e libertos

Os vossos pensamentos e crenças do coração são tudo o que restará…

Deixando o vosso coração aberto

Para os Pensamentos e Sentimentos

Positivos

Roberta Joehle